sábado, 7 de novembro de 2015

AGAIN & AGAIN , EVERYWHERE - BOX de FABIANO NEGRI - Resenha


Tem coisas que são essenciais para cada um de nós, que se tornam parte de nossas vidas, quase como uma parcela indivisível de nossas almas, identidades, e em grande parte responsáveis pela pouca alegria, consolo, alívio de uma vida em geral medíocre & vazia para qual o nosso dia a dia nos empurra everyday... Posso então afirmar sem a menor sombra de dúvida que a vasta obra de FABIANO NEGRI tem este peso em minha vida e já há muito tempo. Vital, necessária, essencial. Posso afirmar ainda mais que “Again and again, Everywhere”, a box compilação de seus 20 frutíferos anos de carreira que acaba de ser lançada surge como um clássico instantâneo, tão essencial para a compreensão & conhecimento do corpo de trabalho do artista quanto algo como “Potsdamer Platz” (uma obra prima de Negri que aliás não poderia faltar e não faltou à seleção do box).
    Quem não viveu aquele período não sabe, mas o início de Fabiano Negri no mundo da música foi épico. Seu primeiro grito no palco foi cantando “Be quick or be dead”, o que já demonstrava o tipo de guerreiro que o mundo conheceria – 'debutar' com uma cover da banda capitaneada por Bruce Dickinson é para os fortes e poucos.
    A primeira faixa do 1o cd desta coletânea dá ideia do grau do extraordinário na vida de Fabiano: o MINDFREAK não foi sua primeira banda, mas “The Omen of Souls” faz parte do único álbum “Shattering Blow” desta que não só estava à frente de seu tempo (me lembro de pensar isso quando Felgar, o 'monstro' da bateria & mastermind do grupo, equivalente aqui no Brasil ao que Mike Portnoy representa para a bateria lá fora, me mostrou o álbum ainda nas demos & me fez pensar “WTF!”) como conheceu um fim triste & prematuro.
    Fim para o fabuloso Mindfreak, recomeço para Fabiano com a banda que viria a ficar conhecida como lenda na cidade de Campinas: o REI LAGARTO.       Desta, o ouvinte de 1a viagem vai conhecer um apanhado de tudo o que gravaram em aproximadamente uma década de existência (considerando somente da entrada de Negri na banda). “Tomorrow” é um sucesso que Fabiano toca até hoje em seus shows numa versão mais 'light', mas admito que a que faz meu sangue ferver é exatamente a original, pesada, safada, quase arrogante dos dias de juventude & 100% Rock'N'Roll attitude do Rei Lagarto.
    Mas o que seria de compilações essenciais sem as raridades & material 'esquecido'? Aos saudosistas (eu talvez um entre eles) o que deve trazer maior emoção além do Mindfreak é a faixa título do álbum do SUN MACHINE, uma espécie de 'dissidência' do Rei Lagarto à época (ill fated infelizmente como a ousada banda Prog Metal avant garde de Mestre Felgar & cia).
    Do Lagarto, eu destaco sempre realmente “Oceans”, que defino como a “Kashmir” do grupo, do álbum de mesmo título com a qual deveriam ter fechado o mesmo. Belíssima, prova incontestável de que Fabiano Negri ia em direção à uma carreira independente, já que este foi composto quase que inteiro pelo vocalista & já pianista à época. Grande felicidade ao ver que Fabiano parece concordar comigo, ao ver a presença desta pérola entre as faixas escolhidas para “Again...” Todos os traços do que Fabiano já estão contidos nesta obra prima que fecha o 'ciclo' Lagartiano nesta coletânea.
   “Flames of Ambition” que abre praticamente todos os shows de Negri hoje em dia é o marco de sua empreitada solo assim com “At Midnight”, ambas na sequência do box.
    Sua Ópera Rock com Tony Monteiro & Marcelo Diniz (lendas do cenário Rock Brasileiro) do Projeto Dusty Old Fingers marca presença com uma faixa, “The man who died everyday”. Longe de ser seu projeto favorito para mim, mas prova inconteste da capacidade de Fabiano de criar, compôr, tocar & cooordenar obras conceituais, na tradição de outros monstros da criação como ele, Roger Waters, Jon Oliva, Pete Towshend, para citar apenas alguns, talento que será mais do que comprovado e consolidado no ano de 2016, quando lança “Cursed Artist”, seu novo Magnum Opus conceitual. Deste, os ouvintes mais atentos podem deleitar-se já bem ao final do 2o CD deste box compilação, com “Dying City”, faixa que abrirá o Álbum vindouro.
    Breve também é a passagem da Unsuspected Soul band com a faixa “Unsuspecting”. Posso estar sendo injusto, mas considero pessoalmente a USB uma curiosidade chique de Yon Berry (mastermind & bandleader do Rei Lagarto) & do próprio Fabiano, mas como tudo que fazem/fizeram, ultra competente e profissional – Ricardo Palma, grande 'cúmplice' de Negri em seus projetos há muito tempo, era parte do lineup da banda, assim como sua musa Nara nos backing vocals, etc. A Unsuspected Band acabou prematuramente, assim como alguns projetos anteriores do artista, por motivos de força maior (a ida de Berry para a Suíça, a morte trágica de uma das garotas dos backings,etc). E Fabiano Negri mais uma vez dá a chamada 'volta' por cima com seu melhor Álbum (porém esperem para ouvir & vivenciar “Cursed Artist”...=) so far, “Maybe we'll have a good time for the last time”, que como o próprio título já demonstra, quase decretou o fim da carreira deste homem. Mas DEUS & o destino são maiores até mesmo que Fabiano...
   Deste, as duas faixas mais indispensáveis, “Potsdamer Platz” (um clássico moderno, Bowieana, única, como já falei e escrevi e tweetei dezenas de vezes antes, simples palavras não fazem jus a esta obra prima) e “Any Blessing on my soul”, um R&B tão belo & profundo, com backings & vocais tão tocantes que faz qualquer coisa que a USB criou soar como uma brincadeira de criança.

   O disco 2 traz raridades e momentos dos quais de uma forma ou outra fiz parte, já que estava lá na plateia da banda: gravações ao vivo do Rei Lagarto no circuito de bares da cidade de Campinas, que o grupo fez extensivamente na década de 90, como o Delta Blues (que aparece com duas faixas) & Sebastian Bar (com “Nightwatch”).
   “Fascinated by the flames” & “Joy”, ambas bonus tracks do “Maybe...”, trazem um Fabiano mais introspectivo, pegada muito pessoal dele, notadamente com influência de outro mestre (mesmo que um pústula como ser humano) Zakk Wylde. Alegria extrema também de ter “Words in vain” remixada e presente nesta seleção. 'Presente' mesmo, porque é isso que esta faixa é para mim & todos os ouvintes de sua obra: uma instrumental brilhante de Mestre Negri, do título à execução, um de seus trabalhos mais belos e que mais amo ouvir, sempre.
   Como também “In a dream”, sua canção tributo a Ray Gillen , vocalista falecido prematuramente, que não me canso de ouvir nunca, parte do EP “Minster Sessions” mas que NÃO está em “Again...”. Talvez esta a única nota dissonante em uma lista de escolhas impecável. Mas como poderiam ironizar alguns, we'll always have paris E o EP genial para ouvir & reouvir quantas vezes quiser...
   “Scream Jackass Blues” fecha com chave de ouro este 2o CD, uma brincadeira sarcástica de Negri que simboliza muito bem esta fase do velho novo Fabiano, capaz de rir de suas próprias desventuras como artista independente e ainda jogar na cara dos detratores a medíocridade dos mesmos. Esta faixa também encerra o que talvez seja a 'cereja do bolo' deste box, no CD/DVD 3...


                      O DOCUMENTÁRIO dirigido por EDDIE STANLEY

   Temos extras com cenas engraçadas de Fabiano & brother James Twin, amigos desde os tempos de Rei Lagarto... Temos o próprio Rei Lagarto se apresentando para uma plateia lotada & empolgada do Parque do Taquaral na época em que Campinas tinha um público de ROCK de verdade... Mas o que escrever sobre o documentário registrando vinte anos de carreira do artista?
   Aos que não viveram nada daquilo, talvez pareça piegas ou sem sentido o que escreverei agora. Mas para mim, Eddie Stanley (o diretor do doc, que fez um trabalho extraordinário, deve-se afirmar) & tantos outros que surgem em depoimentos ao final do mesmo louvando a carreira & pessoa de Fabiano Negri, é impossível NÃO se emocionar.
    A sinceridade, generosidade, simplicidade de um artista tão profundo transbordam em cada depoimento que surge na narração feita pelo próprio em off, seja sobre seus early days de wunderkind em várias bandas, seja em suas elocubrações já maduras sobre o estado em que se encontra a dita 'cena' hoje em dia. O apanhado de sua bela carreira não faz jus à mágica real de quem estava lá como eu & VIVEU tudo aquilo. But then again, Eddie consegue captar à perfeição o feeling daquela época & a força de um cenário ROCK/METAL de Campinas que realmente existiu.
   & o mais incrível, é que talvez o maior testamento e testemunho da força deste frontman esteja em um momento aparentemente escondido nos extras, da apresentação do show do Taquaral: Rei Lagarto tocando “Gets me through”. Ali está registrada para a posteridade toda a energia e poder destes músicos incríveis de uma geração extraordinária. “AGAIN & AGAIN , EVERYWHERE” faz pelo artista FABIANO NEGRI o mínimo justo & que se esperaria para alguém com trabalho tão sólido: estabelece seu nome na História permanente do ROCK.
  Aquisição fundamental, escrevo mais, OBRIGATÓRIA, para qualquer fã sério de MÚSICA, ROCK & ARTE.
Obrigado por TUDO, Fabiano Negri.
 Que venham vinte anos mais, no mínimo …