terça-feira, 6 de outubro de 2015

Resenha crítica - Espetáculo OLHO NÚ - Companhia Híbrida do Rio de Janeiro - Bienal de DANÇA sesc Campinas 2015



     Raras são as vezes em que se tem a chance de vivenciar algo realmente espetacular.
     Imaginem agora ter este privilégio duas vezes em vinte e quatro horas.
    Posso afirmar que eu tive esta experiência.
    A Estação Cultura de Campinas tem a tradição de hospedar/sediar eventos significativos para a arte na cidade e nestes dias 25 e 26 de Setembro foi exatamente isto o que aconteceu.
     A Companhia Híbrida, Trupe do Rio de Janeiro veio a convite da Bienal de Dança promovida pelo Sesc apresentar seu espetáculo "OLHO NU" (que conclui uma trilogia iniciada com "Estéreos Tipos" & "Moto Sensível").
     E quando escrevo 'vivenciar', não é figura de linguagem. Durante preciosos momentos/minutos os oito bailarinos irão nos levar a sentir em&com todos os sentidos o que é estar/ser parte da Arena da dança Hip Hop contemporânea.
     Numa mistura preciosa de Breaking, Waacking, Hip Hop, Popping, Dança Afro, Contemporânea, Ginástica Olímpica (enfim, you name it), percorrem o quadrado central como guerreiros num octógono - no qual a única limitação é justamente criada pelos corpos do público dispostos ao longo dos quatro lados delimitados.
    Forma-se como um 'Dojo', um espaço onde os bailarinos podem brincar mas também 'degladiar-se'. Tanto é assim que num determinado momento, dois deles (Jefte Francisco & Kapú Araújo) se 'enfrentam', como num duelo saído de uma cena de um filme de Sergio Leone. No entanto, felizmente não são balas e sim ARTE, o que é disparada, com velocidade, precisão e técnica impressionantes da parte de ambos utilizando de forma livre breaking e ginástica olímpica combinadas, um show à parte.
    Mas longe de ser o ápice criativo de "Olho Nu".
    RENATO CRUZ, Diretor e Coreógrafo da Cia Híbrida, tem o olhar clínico, a capacidade analítica e a fome de buscar o inusitado que só a juventude aliada ao talento puro podem proporcionar.
    Assim, 'arranca' dos performers desempenhos não menos do que espetaculares, seja no momento em que 'disseca' sessions dos bailarinos individualmente (um dos momentos mais saborosos e divertidos do espetáculo) até as coreografias em que todos dançam juntos, numa celebração de arte, alegria, dança e corpos no auge da forma e juventude.
    Para um sujeito vindo do mundo da Mitologia, Artes Plásticas, Quadrinhos, é muito curioso notar como estes jovens prodígios se assemelham a herois de histórias míticas, seja na fluidez de movimentos da semideusa longilínea Luciana Monnerat, seja nos 'passos' de mão super waacking da impressionante Marjory Lopes, seja na simplicidade cativante de free style de Duly omega a.k.a. Luciano...
    Há de se acrescentar a sensibilidade também da preparadora & assistente de direção Aline Teixeira, na escolha da trilha que traça o painél sonoro de "Olho Nu". Do uso da frequência em 23 Hertz (recurso muito usado pelo mestre cineasta Gaspar Noé que propositadamente traz um incômodo aos ouvidos menos preparados/acostumados aos graves - NÃO os meus, baixista desde nunca, posso garantir!) às batidas que simulam o Bass, tudo em perfeita sincronia com as necessidades dos Bailarinos Gladiadores.
   Desde o La La La Human Steps, não via dança me maravilhar desta forma. E desde minha incrível 'descoberta' do La Fura Dels Baus em 1991, não via uma plateia tão 'assustada', já que "Olho Nu" acontece praticamente no 'colo' dos espectadores. Tão forte e real que pode-se sentir o deslocamento de ar dos saltos matrixianos de Kapú, o respirar e o suor  dos bailarinos traçando coreografias no ar...
    Junte-se a isso tudo momentos épicos (como o pôr do Sol banhando os corpos belos e atléticos de nossos 'herois' da Street Art, ou o passar de trens de carga no exato momento do 'duelo' (algo bem comum de ocorrer em espetáculos encenados na Estação Cultura), surtindo efeitos comparáveis a um score de Ennio Morricone, e o que se obtém é um evento mágico.
   E eu tive a benção de viver isto. Duas vezes.
   Muitas palavras poderiam ser usadas para se tentar definir a experiência que é "Olho Nu".
   Inesquecível, intenso, ducaralho, magnífico, inspirador, sensacional, majestoso. Mas todas e qualquer uma em especial serão apenas uma tentativa pobre de descrever algo ÚNICO. Esta sim talvez a única palavra que caiba.
   Então faça-se um imenso favor e se estiver pela cidade de São Paulo em Novembro de 2015, assista "Moto Sensível" e mergulhe na magia da Companhia HÍBRIDA.
   Porque em 45 anos, "Olho Nu" é um dos melhores espetáculos que vi em toda a minha vida.

                                                                        


                                                                            Leonardo Mattar Monteiro

2 comentários:

  1. Obrigado pela dedicação em nos escrever estas palavras, obrigado pela partilha!

    Companhia Híbrida

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  2. Obrigado pela dedicação em nos escrever estas palavras, obrigado pela partilha!

    Companhia Híbrida

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