Raras são as vezes em que se
tem a chance de vivenciar algo realmente espetacular.
Imaginem agora ter este
privilégio duas vezes em vinte e quatro horas.
Posso afirmar que eu tive esta
experiência.
A Estação Cultura de Campinas
tem a tradição de hospedar/sediar eventos significativos para a arte na cidade
e nestes dias 25 e 26 de Setembro foi exatamente isto o que aconteceu.
A Companhia Híbrida, Trupe do
Rio de Janeiro veio a convite da Bienal de Dança promovida pelo Sesc apresentar
seu espetáculo "OLHO NU" (que conclui uma trilogia iniciada com
"Estéreos Tipos" & "Moto Sensível").
E quando escrevo 'vivenciar',
não é figura de linguagem. Durante preciosos momentos/minutos os oito
bailarinos irão nos levar a sentir em&com todos os sentidos o que é
estar/ser parte da Arena da dança Hip Hop contemporânea.
Numa mistura preciosa de
Breaking, Waacking, Hip Hop, Popping, Dança Afro, Contemporânea, Ginástica
Olímpica (enfim, you name it), percorrem o quadrado central como guerreiros num
octógono - no qual a única limitação é justamente criada pelos corpos do
público dispostos ao longo dos quatro lados delimitados.
Forma-se como um 'Dojo', um
espaço onde os bailarinos podem brincar mas também 'degladiar-se'. Tanto é
assim que num determinado momento, dois deles (Jefte Francisco & Kapú
Araújo) se 'enfrentam', como num duelo saído de uma cena de um filme de Sergio
Leone. No entanto, felizmente não são balas e sim ARTE, o que é disparada, com
velocidade, precisão e técnica impressionantes da parte de ambos utilizando de
forma livre breaking e ginástica olímpica combinadas, um show à parte.
Mas longe de ser o ápice
criativo de "Olho Nu".
RENATO CRUZ, Diretor e
Coreógrafo da Cia Híbrida, tem o olhar clínico, a capacidade analítica e a fome
de buscar o inusitado que só a juventude aliada ao talento puro podem
proporcionar.
Assim, 'arranca' dos performers
desempenhos não menos do que espetaculares, seja no momento em que 'disseca'
sessions dos bailarinos individualmente (um dos momentos mais saborosos e
divertidos do espetáculo) até as coreografias em que todos dançam juntos, numa
celebração de arte, alegria, dança e corpos no auge da forma e juventude.
Para um sujeito vindo do mundo
da Mitologia, Artes Plásticas, Quadrinhos, é muito curioso notar como estes
jovens prodígios se assemelham a herois de histórias míticas, seja na fluidez
de movimentos da semideusa longilínea Luciana Monnerat, seja nos 'passos' de
mão super waacking da impressionante Marjory Lopes, seja na simplicidade
cativante de free style de Duly omega a.k.a. Luciano...
Há de se acrescentar a
sensibilidade também da preparadora & assistente de direção Aline Teixeira,
na escolha da trilha que traça o painél sonoro de "Olho Nu". Do uso
da frequência em 23 Hertz (recurso muito usado pelo mestre cineasta Gaspar Noé
que propositadamente traz um incômodo aos ouvidos menos preparados/acostumados
aos graves - NÃO os meus, baixista desde nunca, posso garantir!) às batidas que
simulam o Bass, tudo em perfeita sincronia com as necessidades dos Bailarinos
Gladiadores.
Desde o La La La Human Steps,
não via dança me maravilhar desta forma. E desde minha incrível 'descoberta' do
La Fura Dels Baus em 1991, não via uma plateia tão 'assustada', já que
"Olho Nu" acontece praticamente no 'colo' dos espectadores. Tão forte
e real que pode-se sentir o deslocamento de ar dos saltos matrixianos de Kapú,
o respirar e o suor dos bailarinos
traçando coreografias no ar...
Junte-se a isso tudo momentos
épicos (como o pôr do Sol banhando os corpos belos e atléticos de nossos
'herois' da Street Art, ou o passar de trens de carga no exato momento do
'duelo' (algo bem comum de ocorrer em espetáculos encenados na Estação
Cultura), surtindo efeitos comparáveis a um score de Ennio Morricone, e o que
se obtém é um evento mágico.
E eu tive a benção de viver
isto. Duas vezes.
Muitas palavras poderiam ser
usadas para se tentar definir a experiência que é "Olho Nu".
Inesquecível, intenso,
ducaralho, magnífico, inspirador, sensacional, majestoso. Mas todas e qualquer
uma em especial serão apenas uma tentativa pobre de descrever algo ÚNICO. Esta
sim talvez a única palavra que caiba.
Então faça-se um imenso favor e
se estiver pela cidade de São Paulo em Novembro de 2015, assista "Moto
Sensível" e mergulhe na magia da Companhia HÍBRIDA.
Porque em 45 anos, "Olho
Nu" é um dos melhores espetáculos que vi em toda a minha vida.
Leonardo Mattar Monteiro

Obrigado pela dedicação em nos escrever estas palavras, obrigado pela partilha!
ResponderExcluirCompanhia Híbrida
Obrigado pela dedicação em nos escrever estas palavras, obrigado pela partilha!
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