quarta-feira, 9 de novembro de 2016

TÃO LOGO - Espetáculo de DOUGLAS CHAVES em comemoração aos 10 ANOS da Companhia de Teatro CORPO SANTO


              
             Como você seria daqui dez ANOS? Como estaria sua vida? Difícil saber?  Então faça o exercício oposto: imagine-se dez anos atrás. Como era você? O que mudou na sua personalidade de lá pra cá? Mais fácil ou mais difícil agora?
             Bem, fácil ou difícil lembrar-imaginar-projetar, o fato é que nada é fácil ou vem 'mastigado' para vocês espectadores no espetáculo “TÃO LOGO” de DOUGLAS CHAVES que marca os dez anos da Companhia de Teatro CORPO SANTO, que tem montado nesta última década trabalhos sempre instigantes e incomuns.
             Desta vez, Douglas se aventura em uma dramaturgia densa, sólida, pensada milimetricamente (como aliás tudo que Chaves faz usualmente), deixando uma aparente ambientação caótica (mas só aparentemente) neste seu exercício de “E SE?”... O espectador será jogado num torvelinho de metalinguagem, partindo do ponto inicial de uma festa, um reencontro que pretende fazer a ponte para um hiato de uma década entre os personagens.
             Sou MUITO suspeito para fazer tal relato-resenha de “Tão Logo”. Afinal, acompanho o trabalho da Cia Corpo Santo há muitos anos. Por ser parceiro de ELAINE ÁVILA CRUZ há mais tempo ainda, tenho tido o privilégio de estar com eles & compartilhar de suas alegrias & vicissitudes, como quando aplaudidos em cena aberta em apresentação única de um Festival de Teatro (na cidade de Vinhedo) e muitas ocasiões mais …


            Por esta razão, me forcei a um exercício estético: criar não só uma resenha – ou 'crítica' (termo que detesto por todo o ranço formalista babaca que carrega) – do ponto de vista do analista de Teatro, como também um texto do ponto de vista do espectador na plateia que NUNCA tivesse visto a Cia Corpo Santo atuar. Abaixo, o(s) resultado(s). Espero que entretenham vocês leitores tanto quanto o fez ao escriba aqui …



                              TÃO LOGO – Resenha do crítico de Teatro

              
            Qual não foi o meu prazer (até certa ansiedade, não nego, devo confessar) ao me sentar à uma cadeira naquele fim de tarde no CIS Guanabara (espaço que tem abrigado grandes apresentações de teatro nestes últimos anos, de cultura popular a Gogol, de Tchekov à vanguarda teatral do século XXI, como o dramaturgo-diretor-ator DOUGLAS CHAVES) para presenciar (não, vivenciar é certamente palavra mais apropriada) um exercício hipotético girando em torno do NÓS – todos nós & mais especificamente os atores da Cia CORPO SANTO – e o seguinte questionamento: “ONDE e COMO estaremos daqui a dez anos?”;”E SE sua vida não tivesse sido-fôr-será exatamente como imaginara/quisera?” …
             Então, o início de uma festa para comemoração-reencontro de uma trupe Teatral (justamente a própria Corpo Santo em questão) serve de pano de fundo para nossa viagem na realidade imaginada, com Douglas Chaves (também atuando neste espetáculo) como espinha dorsal & amálgama de todos os acontecimentos que se seguirão.

             O que Chaves faz é meio que confrontar o passado com toda a euforia e nostalgia que carrega (para o bem & para o mal) com a realidade perene do AGORA. O presente sempre se mostra mais implacável e duro. É realidade versus utopia. E como bem se sabe, desde que Thomas More a idealizou, toda utopia é ingênua & irrealizável.
             Vamos sendo apresentados aos personagens – 'characters' SIM, porém mais para versões sombrias & não tão bem delineadas deles mesmos – os thespians extraordinários da Cia Corpo Santo um a um, que se (re)conhecem (& se estranham na mesma medida) conforme chegam informalmente para a celebração. É muito saboroso, divertido, bizarro & angustiante o desenrolar da história principalmente para alguém como EU que conhece razoavelmente bem todos aqueles que ali atuam e suas personas. 
             Primeiro porque trata-se de um espetáculo cheio de metáforas, metalinguagem e principalmente quebras, que fazem o espectador questionar-se se o que está diante de seus olhos é, pode ser ou ter sido real ou apenas invenção. A todo momento te põe na beira do assento para te devolver a calma (ou te pôr mais angustiado ainda) até o momento questionador-questionável seguinte.


              Segundo, porque o questionamento vem exatamente do fato das personalidades deles todos serem um tanto opostas ao que “Tão Logo” nos mostra. É como se dez anos tivessem trazido tudo neles de mais inseguro à tona.
             Douglas investiu pesado na dramaturgia desta vez. O que temos de seus espetáculos intimistas, subjetivos, 'navalha na carne' Genet/Dolanianos, é um trabalho meticulosamente pensado & construído, da música (sempre brilhante e parecendo ter sido composta especificamente para as cenas) ao figurino/vestuário primorosos (outro ponto alto, escolhido com perfeição, trazendo formalismo, suposta maturidade e também como um luto velado, a não ser no personagem mais 'desgraçado' deste futuro idealizado, que parece carregar no branco que traja um farol de esperança), incômodo sim às vezes, longo por outras, que se permite silêncios profundos (uma marca da criação de Chaves) para pôr à mesa & discutir uma série de questões pertinentes a qualquer ser humano: quem sômos realmente? No que nos tornaremos em anos futuros? Quais serão nossos questionamentos/valores? O que é o TEATRO afinal? 
             Muitas destas perguntas serão respondidas (ou não) conforme JEFFERSON LEARDINI, LUÍS BINOTTI, WAL BUARQUE, ELAINE ÁVILA, o próprio DOUGLAS & com a adição muito bem vinda de PALOMA DUARTE (excelente em uma personagem bastante peculiar) forem chegando e apresentando-se – sem mencionar uma série de surpresas que Douglas preparou para a plateia (mas que assim ficarão, como boas surpresas que são, ocultas até que vá assistir & presenciar com seus próprios sentidos) ...

             É no texto precioso de Chaves que sentiremos a crueldade do real em oposição ao idealizado. E a pungente poesia desta forma de ARTE essencial. Frases preciosas como “as pegadas brancas do breu da bailarina no assoalho”, “isto não é Física Quântica, é TEATRO”, “parece que fômos amaldiçoados ao nascer pela Bruxa do Teatro” estabelecem um tom onírico. Atores são 'fingidores', mentirosos habilidosos por natureza. Portanto, cuidado com a pretensa exibição da 'personalidade' dos Atores em cena pois em “Tão Logo”, talvez NADA seja o que pareça ser; mas ao mesmo tempo, da simulação de um futuro desolador pode eclodir a verdade das ATRIZES, ATORES, dos SERES HUMANOS!
            TÃO LOGO me emociona e mexe comigo muito mais que NÓS - espetáculo com paralelos inegáveis com o de Chaves. Mas com todo devido respeito ao Grupo Galpão, idealizado-criado muito antes sequer da peça deles ter debutado (& EU sou testemunha, já que acompanhei todo o processo de criação de Chaves inclusive com o elenco & seu provocador mor ADOLFO BARRETO).
            NÓS mira mais o macrocosmo – o coletivo, o social, por assim escrever. Válido & necessário. Porém, eu como bom Anarquista creio que só se muda o entorno se mudares a SI mesmo primeiro. Portanto, pessoalmente, acredito mais no microcosmo.
          E não pensem que “Le temp detruit tout” no futuro hipotético imaginado por ele. DOUGLAS CHAVES nos brinda exatamente com o que há de mais profundo & complexo no ser humano – A ALMA. Não é apenas fumaça & espelhos, anilina & mel ... Há espaço para o belo e a compaixão na mesma medida. Um dos Espetáculos essenciais do ano de 2016. Prestigie (principalmente se está na cidade de Campinas).
         “ TÃO LOGO “ é TEATRO em estado PURO. 
          Parabéns Douglas Chaves & Companhia Corpo Santo. SAÚDE, e um brinde a DEZ ANOS mais!





                                                                               Leonardo Mattar Monteiro







                                   TÃO LOGO – Análise do Espectador

            Cheguei ao CIS Guanabara esperando encontrar um espaço convencional de apresentações, uma sala, um palco... Qual não foi minha surpresa ao me deparar com cadeiras ao fundo do local, em meio à grama, com uma mesa montada como que para um happening.
            De repente, tudo começa, os atores vão chegando e saindo de cena num ritmo frenético e caótico, que remete ao que é a própria vida no dia a dia. Eles se sentam à mesa, começam a beber, parecem embriagar-se, mas aí você olha as garrafas, nota e pensa: “Eles estão bebendo água”. Então, o quanto de real e o quanto de 'faz de conta' tem ali? Há quebras de cena e raciocínio que te fazem lembrar, é teatro o tempo todo, né …
            Fiquei impressionado com as performances. Todos os atores bastante profundos, mergulhados em suas personagens (personagens ou será que aquilo tudo é uma exarcebação de suas próprias personalidades? A peça brinca tanto com estas possibilidades que confesso que me pôs em dúvida). Uma intensidade de interpretação que mexe com a gente e faz pensar. Muito forte. E como se não bastasse, há toda uma interação com o público, quando menos esperamos tem algo ou alguém interferindo em tudo …


            É mencionado o tempo todo por um dos atores (que me disseram ser também diretor e escritor deste trabalho, incrível!) e ao final - que fico contente, não termina em um tom 'pra baixo', já que todo o transcorrer leva-nos a pensar em vários finais horríveis e possíveis para a trama – acho que é isso mesmo: “Tão Logo” é um Espetáculo sobre cada um de NÓS. Este é um trabalho essencial a que todos deveriam assistir. Saio da experiência (que no começo, me pareceu longa, como um dia ruim, ou aquela festa que ganha um tom desagradável, sabe? Até entender que certamente esta foi a intenção do diretor, de nos levar por caminhos angustiantes, com idas e vindas) movido, comovido e renovado. 
           Assisti “Nós” em São Paulo , espetáculo que guarda semelhanças com este aqui, mas confesso: “Tão Logo” calou muito mais fundo em minha alma.

           Uma jornada de auto conhecimento.




Ficha técnica:

Elenco:

Douglas Chaves, Elaine Ávila, Jefferson Leardini, Luis Binotti e Wal Buarque
Participação: Paloma Duarte
Dramaturgia e Direção: Douglas Chaves
Provocações: Adolfo Barreto
Sonoplastia: Douglas Chaves
Operação de Som e Luz: Diego Consoline
Edição de Vídeo: Bruno Cardoso
Captação de Imagens: Adolfo Barreto
Produção: Cia. Corpo Santo
Apoio: CIS Guanabara

"Tão Logo - uma peça de teatro para finais de tarde"

Em cartaz no Espaço CIS Guanabara

(local de atuação da Companhia Corpo Santo desde 2013)

Datas: 

12, 13, 19 & 20/11 – 18h

Ingressos: No chapéu 

(o público decide quanto deverá pagar pela experiência)

Lotação: 40 lugares (reservas)

Local: CIS Guanabara – Rua Mário Siqueira, 829 – Botafogo – Campinas 

(Atrás da Unimed da Barão de Itapura) 

Telefone : 3233- 7801

Facebook: Cia. Corpo Santo

Twitter: @CiaCorpoSanto
              
             @DougChaves

             @LaineAvilaCruz

             @JeLeardini

             @WalBuarque

             @LuisBinotti

             @PalomaFQ



                                                DOUGLAS CHAVES

                                                 
                                                LUÍS BINOTTI

                                             
                                               ELAINE ÁVILA CRUZ

                                              
                                                WAL BUARQUE

                                            
                                              JEFFERSON LEARDINI

                                                  
                                                PALOMA DUARTE

                                               
                                              DIEGO CONSOLINE

                                                       Luz & Som

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

QUEM foi DAVID BOWIE ? Legado , história & influência do camaleão do ROCK na Cultura POP

           De todos os artistas da chamada Arte Pop e ou de vanguarda, podemos destacar DAVID BOWIE certamente como um dos maiores, mais influentes, originais & inventivos da cena mundial, ditando costumes na música, arte, cinema, moda, em praticamente TUDO.
          Tristemente Bowie nos deixou recentemente vítima de um cancer, mas suas marcas podem ser vistas & sentidas everywhere.
          Inclusive na obra de seu mais honorável discípulo & herdeiro, o Artista multiinstrumentista FABIANO NEGRI.
          O blog beware the matrix questionou Fabiano sobre quem foi Bowie & sua importância para as Artes, além da impressão indelével deixada no próprio Negri há décadas...
          Acho que o próprio Master David Bowie ficaria lisonjeado com esta homenagem.





          Leonardo Mattar Monteiro - Gaga , Marilyn Manson, Duran Duran... pode-se ver a inspiração dele pra todo lado. Mas e para você, QUEM foi David Bowie, Fabiano? Onde e como o artista entra em sua vida?


          FABIANO NEGRI - David Bowie foi um cara que abraçou todas as oportunidades que a arte lhe ofereceu. Nunca teve medo de errar e esse é o motivo pelo qual acertou tanto.
Conheci o Bowie ainda criança na época do grande sucesso comercial do Let's Dance. A partir daí sempre fui fascinado pela sua carreira, e principalmente por sua coragem de se reinventar. Claro, estamos falando de um ser humano com inteligência e talento fora do comum. Não adianta atirar para todo lado se a maioria dos tiros não acertarem o alvo.

          

          LMM - Como artista, músico, quais os sinais mais claros e inegáveis da influência de Bowie em seu próprio trabalho?


          FN - Liberdade artística e total ausência de preconceitos sobre qualquer assunto. Eu sou o cara que ouve e vê antes de omitir opinião. E também sou uma esponja quando o assunto me agrada. Bowie me ensinou a buscar inspiração em lugares pouco visitados pela maioria. Na verdade eu demorei um pouco para começar a expor esse lado, que me acompanha há tantos anos. Mas daqui pra frente minha arte estará muito mais "fora" do que "dentro da casinha". Meus últimos lançamentos solo já mostram isso e tudo tende a ficar um pouco mais interessante. 



          LMM - Bowie também teve carreira prolífica e extraordinária no cinema, atuando em obras primas como "The Hunger" [ Fome de Viver ], "The man who fell to Earth" [ O Homem que caiu na Terra ], "Labyrinth"... Acha que Bowie foi subestimado com relação a maneira como viam sua carreira como ator?


          FN - Bowie se arriscava muito, mas ele não faria alguma coisa sem ter certeza que poderia contribuir de forma satisfatória. Era um grande ator e teve formação para isso. Basta dizer que no início de sua carreira foi pupilo do genial Lindsay Kemp. Não acho que tenha sido subestimado, pois seus filmes estão muito bem guardados no inconsciente de várias pessoas. É apenas mais uma faceta do talento do mestre.




          LMM - Bowie marcou gente de gerações diferentes, como eu mesmo & você, e ao que parece continuará influenciando as que estão por vir... É possível mensurar o tamanho ou o peso da importância de David Bowie nas Artes?


           FN - Não. A contribuição dele é tão grande, e abrange tantas áreas diferentes, que é difícil mensurar o tamanho do seu impacto. E eu imagino que sua morte levará isso para a estratosfera. O que é muito bom. Espero que o mundo pare novamente para perceber o quanto esse artista foi, e é, genial. Para quem não mergulhou em sua obra, não é assunto para um mês e nem para um ano. É para uma vida de absorção. Até hoje eu ainda me surpreendo com as camadas de sua personalidade.
Se você não conhece e tem paciência para apreciar arte de qualidade, corra atrás de tudo o que ele fez. Agora!




          LMM - Conheço poucos seres humanos na face da Terra que tenham tanto ou mais conhecimento da obra musical de David Bowie que você, Fabiano. Se tivesse de analisar suas diferentes fases musicais ao longo destas décadas todas, qual seria sua avaliação?


          FN - Olha, Leo, eu teria que escrever um livro. Não dá pra falar de folk, rock, hard rock, pop, new wave, gothic music, krautrock, dodecaphonic music,metal, industrial, jazz, art rock, art pop, punk e etc. em poucas e tortas linhas. Seria injusto. Parece brincadeira, né? Mas Bowie esteve envolvido em todos esses estilos e movimentos. E sempre criou ótimos trabalhos. Mas eu volto a insistir: a grande contribuição do Bowie para a música foi fazer as pessoas - inteligentes, é claro - perceberem que ela não precisa ter rótulos, e só existem dois tipos, boa e ruim. Estamos falando de LIBERDADE!!

    

          LMM - Sei que adorou BLACKSTAR [ Álbum final do artista lançado poucos dias antes de sua morte ] . São tantas fases musical & conceitualmente falando, que cada um terá seu álbum / canção favoritos [ eu, por exemplo, amo & acho a fase Berlin, da Trilogia sagrada LOW / HEROES / LODGER com suporte do Mestre Brian Eno, insuperável ]. Se tivesse de citar 1 Álbum favorito, qual seria? E canção, é possível escolher UMA que simbolize o camaleão?...


           FN - Meu álbum favorito é o Station to Station e minha mais nova canção favorita é Blackstar. Ninguém até hoje foi cerebral ao ponto de transformar a própria morte em arte. Respeitoso com os fãs, e genial pela última vez.




                              https://pt.wikipedia.org/wiki/Trilogia_de_Berlim

                           https://www.youtube.com/watch?v=kszLwBaC4Sw


         LMM - Seu mais recente & avantgarde trabalho musical, Z3RO, na minha opinião tem muito do Mestre Bowie, assim como "Potsdamer Platz", do título à estética, à sonoridade. Estou equivocado ou faz sentido?


         FN - Claro que faz sentido. Eu me inspiro muito no trabalho do Bowie. Sempre me inspirei. Não é a toa que meu nome artístico no inicio do Rei Lagarto era David Popp, né? Mas que fique claro, eu tenho influência, não copio. Não quero ser o Bowie. Eu quero ser "eu" com a coragem que ele teve pra fazer o que bem entendesse.




         LMM - Agora que Bowie se foi, só vejo você em termos de conhecimento musical & ecletismo para manter a tocha camaleônica acesa. Pronto para continuar o legado, Mestre Negri?


         FN - Imagina, Leo! Longe disso. Bowie era um gênio, sempre foi. Eu sou um cara que trabalha muito, e seriamente. Mas não sou um gênio. Passei muitos anos da minha vida investindo num som ordinário - muito legal, mas ordinário - e tive coragem de assumir quem eu realmente sou há pouco tempo. Ainda estou engatinhando, aprendendo a me soltar e deixar minha imaginação fluir. A viagem está só começando mas eu garanto que será muito divertida.
Viva Bowie!!! Obrigado por tudo, Mestre. 

   
        
                                Obrigado a VOCÊ também , Mestre Negri!

Abaixo segue a carta de elegia que Fabiano escreveu no dia da morte de Bowie.

 " E o cara que me ensinou praticamente tudo na música se foi... E ele era tão genial que transformou sua própria morte em arte. Arte bela, inédita, sem rótulos, como tantas vezes ele fez durante a vida. O camaleão foi influência recorrente em praticamente tudo o que eu fiz - e farei - na música. Foi ele que me ensinou a não me prender a apenas um estilo, a pensar fora da casinha na hora de criar harmonias, melodias e arranjos, a ser verdadeiro e honesto com o que eu faço. Major Tom, Ziggy Stardust, Alladin Sane, Thin White Duke... Como uma amiga colocou muito bem no Facebook, a morte do mestre não é uma simples morte, é um genocídio artístico. Tantos personagens, tantas músicas incríveis... Nunca mais existirá um artista como ele. Um artista que não teve medo de matar um personagem no auge do sucesso porque musicalmente já não era mais interessante pra ele. Que mudou tantas vezes de estilo, que confundiu - e perdeu - muitos fãs pelo caminho. Que nunca deixou nada corromper sua arte, sua música. Um artista de verdade, que venceu porque desfilou diversas camadas de sua personalidade sem medo de errar. Foi homem, mulher, alienígena...Foi tudo. Mestre, dia desses eu escrevi em uma entrevista que se eu pudesse fazer 10% do que você fez eu estaria feliz. Eu sei que não irei conseguir tal feito. Afinal, ídolos são intocáveis. Eu gosto de pensar assim. Eu amo viver a magia de ser simplesmente fã. E na arte que eu amo você foi o grande mágico. Deixo aqui, com o coração apertado, minha singela homenagem. Obrigado por tudo, David Bowie".






     
  FABIANO NEGRI lançou quase simultaneamente com o último álbum de Bowie um de seus trabalhos mais ousados, o double single Z3RO + MY DARK PASSENGER. Tive o privilégio de ouvir os mesmos in advance meses atrás. Os ouvintes de boa música tem o mesmo privilégio agora, o(s) single(s) foi disponibilizado(s) pelo Artista para audição & download em sua página no soundcloud. Ouçam, baixem, deleitem-se, compartilhem :

                    https://soundcloud.com/fabianonegri/sets/z-e-r-o



domingo, 17 de janeiro de 2016

Interview com o Músico da cena Metal BRUNNO MARIANTE

             
             BRUNNO MARIANTE é um daqueles caras com quem você simpatiza logo de cara. Abstêmio, simpatizante da causa animal, ético, empreendedor, e um amante incorrigível do estilo musical mais honesto e verdadeiro do Mundo, o METAL. Como se não bastasse tudo isso, este artista é atuante num cenário problemático como é o da cidade de Campinas.        Começa sua carreira como aluno de um dos maiores professores / vocalistas do País [Fabiano Negri], consolida onze anos à frente da banda NITROJAM [que Mariante brinca dizendo que considera quase sua ‘banda solo’, por causa dos percalços & mudanças de formação constantes vividos pela mesma], num período hostil e desfavorável para o Metal na cidade [de meados dos anos 2000 até anos recentes atrás] e em 2015, vive certamente seu melhor ano, com diversas bandas [V Project, Cachaça Com, Nitrojam, Vindicta, Trashers] tendo o privilégio de contar com seus trabalhos, tanto como vocalista quanto como compositor.
           Foi em seu home studio com vista para a cidade, e sua ‘petite chienne’ Belinha nos observando, que Brunno abriu sua alma e contou muita coisa do que já rolou em sua carreira do que ainda está por vir... A seguir a transcrição de nosso bate papo: 
 
          Leonardo Mattar Monteiro – Antes de mais nada, temos perdido grandes figuras da Música logo neste fim / início de anos. Philty ‘Animal’ Taylor, Lemmy Kilmister [praticamente o grupo Motörhead inteiro], David Bowie, só para citar os mais notórios. Estes caras te influenciaram? Tem importância na sua história de vida?
          Brunno Mariante – Tem e muita. David Bowie teve uma importância vital no meu processo de formação como músico. Fui aluno do Fabiano [Negri, Ex. Cromat, Escola Cultura Pop]; meu domínio da técnica na época ainda era muito rudimentar, então procurava vocais e timbres que me fossem melhores e confortáveis. Eis que o Fabiano me passava canções do Mestre Bowie para ensaiar. Então, ao invés de passar Chico Buarque, ouvia e cantava Bowie! Recentemente fui criticado numa rede social ao comentar sobre a morte de David, disseram algo como: “Mas você nem ouve Bowie, Brunno”! Só que pouca gente sabe dos meus primórdios como estudante de música. Então, mesmo não ouvindo mais seu trabalho, Bowie tem sim muita importância em minha formação.
        Agora, quanto ao Lemmy, Phil "Annimal" Taylor, é até óbvio: Motörhead foi uma das primeiras bandas que ouvi em toda minha história. Lembro-me de ter ouvido o baixo estourado e aquela voz rouca, suja, e pensava: “Será que o cara emposta a voz e canta assim ou ela é deste jeito mesmo”? Nem tenho muito o que dizer, claro que marcou minha vida.
       LMM – E como entra  a Música & o Metal em sua vida então? Pode parecer uma pergunta meio clichê, mas já ouvi de alguns músicos que não se lembravam de exatamente quando & como... Lembra-se quando e qual foi o primeiro álbum que ouviu?
       BM - A banda que me introduz ao METAL, IRON MAIDEN [nota deste que vos fala: para mim também, em 1983, álbum “Piece of Mind”; a abertura de Nicko para “Where Eagles Dare” me marcou de forma indescritível. Para Mariante foi...] O primeiro álbum? “Number of the Beast”. Para mim ainda o maior e melhor trabalho do grupo. Tinha doze anos de idade [same same, Brunno, quando ouvi Iron pela 1ª vez =], guardava o dinheiro que tinha para finalmente comprar o “Number...” já em CD! Minha segunda ‘bolachinha’ foi “Refuse / Resist” do nosso SEPULTURA!
        LMM - Então desde o inicio, o Metal já estava presente em sua vida...
        BM – Pois é... Mas ninguém me apoiava em minha família. Todo mundo tentou me dissuadir. E quanto mais eles tentavam, mais eu mergulhava nesta minha paixão. Formei-me em Artes Visuais & Design, posteriormente também em Marketing, mas a música seguia paralelamente, sempre.  Como já mencionado antes, tive aulas com o Negri na escola Cromat, formei minha primeira banda, Wet Floor, um tempo depois, aí veio o período com o Nitrojam de 2005 até hoje...
        LMM – Apesar de tantos percalços até agora, o Nitrojam, me parece, vive seu momento mais significativo. Andreas Dehn [ex-Kamala] e Mauricio Figueiredo [ex-Maestrik] na formação atual, um álbum recente admirável [ “Twilight Zone” ], seu vocal mais seguro, em clara evolução. Quais são os planos futuros para o grupo?

       BM - Sobre este ano, precisamos consolidar nossa formação. Andreas se incorporou muito bem ao time, agora está retornando à sua casa original [o SoulRiver] também, temos três composições brand new, "Ready to die” [que já foi “Wings of Liberty”, até chegou a ser tocada ao vivo algumas vezes, na opinião deste que vos escreve, uma das melhores já criadas por Mariante], "Fighting Force” e “Beta Ray”; além destas, tenho no meu home studio pelo menos esqueletos para mais umas 16, 17 faixas...

Capa do Álbum TWILIGHT ZONE da banda NITROJAM realizada por FERNANDO RICCIARDULLI  [ Estúdio Chromatic Chaos do México ]
     LMM – E como foi trabalhar com Ricardo Palma em Estúdio?
     BM – Ricardo Palma é foda! Tocou todos os baixos no "Twilight Zone" além de gravar & produzir o mesmo em tempo recorde. Foi um milagre. Não imagino trabalhar com um produtor no Brasil melhor que ele. Seu know how é ducaralho. O cara trabalhou em New York com o técnico de som que fazia mesa para o DREAM THEATER. Por aí você faz uma ideia... [ não à toa Fabiano Negri também trabalha quase sempre com Palma ].


    O extraordinário músico / produtor RICARDO PALMA [Estúdio Minster , Campinas]
      LMM – Como compõe? Sozinho no estúdio?
      BM – Compor é um processo engraçado... Apesar de sempre seguir o mesmo modus operandi [Brunno é extremamente disciplinado, trabalha as bases musicais na guitarra, depois pensa as linhas vocais para somente então desenvolver / encaixar as letras], a maneira como as ideias surgem é interessante. Às vezes tô no trânsito, surge um riff na cabeça, ligo o gravador e canto de qualquer jeito! [risos] Aí só depois quando chego em casa corro pra passar pro Guitar Pro, Easy Drummer, etc, e começo o processo de criação propriamente dito! Então eu e o Andreas coordenamos tudo entre o home studio dele e o meu.

      LMM – Se tem uma coleção tão grande de novas composições, podemos esperar um novo álbum do Nitrojam para este ano?
      BM – Acho que não... Somente em 2017 ou 2018. Antes, temos que fechar nossa formação atual. Cogitamos alguns bateristas, como Rikk M. e Nílton Lucena, mas nada está acertado ainda. Por enquanto, meu foco e dedicação maiores estão com o Vindicta, este sim deve lançar um EP muito em breve...Além disso eu estou com uma pegada mais ‘raçuda’ mesmo ultimamente. Uma volta às raízes do grupo, com mais experiência e técnica. Tento fugir dos clichês pré-estabelecidos. Tem uma história hilária sobre isso: recentemente, o Vindicta foi ‘rejeitado’ por um sujeito que administra uma página de Curitiba que autodenominei ‘DESUnião do Metal Brasil’. Qual a razão, segundo ele? Porque não seríamos ‘Doom’ o suficiente para a página dele – ou seja, não tiramos fotinhos com árvores secas, não sucumbimos aos clichês. Nossa sessão de fotos, realizada por Rita Leite, foi em PB, em cima de uma HD... Gente de mentalidade tacanha e limitada, mas enfim...
      LMM – Ok, então fale sobre o Vindicta em 2016.
      BM – A banda está de vento em popa; já começamos o ano com vários shows marcados. Dia 6 de Março estaremos no Sebastian Bar com um cast de bandas muito bom, Holder of Souls, X-Empire, Fenrir’s Scar... Além do quê, também temos ideias já formalizadas de composições que fechariam quase dois álbuns... Umas 18 faixas pelo menos...
      LMM – Uau ! E vão lançar isto tudo de uma vez?
      BM – Não! Selecionaremos as melhores canções e fecharemos num EP.
      LMM – Sua gata Leonora [Mölka, baterista] toca contigo no Vindicta. Como é a relação profissional, rolam aquelas tretas típicas de banda com ela também?
      BM – Leonora é de Áries, eu de Touro... Mas sou um Taurino atípico. Não sei como, mas rola tudo as mil maravilhas. Somos mais ‘parceiros de crime’, cúmplices com as ideias para a banda, do que antagonistas. Temos conflitos na banda, mas posso garantir que NÃO são com ela! [risos]
     No Nitrojam me acostumei a escrever, fazer tudo praticamente sozinho. Com o Vindicta, é muito diferente. Para começar, o Vindicta é a banda da Leonora. Apesar de ter sido convidado para ser o vocalista, o processo de composição é coletivo. Depois da entrada de um segundo guita, tudo tem funcionado melhor. E Rick [ Pozzy ] é o ‘nosso’ Adrian Smith; ele é o cara mais ‘clássico’ do grupo, somando muito ao nosso som. Comecei na banda criando muita coisa musicalmente. Mas atualmente, sou mais letrista e frontman mesmo. Quem mais compõe no momento os principais esqueletos das músicas da banda toda, é o Jonathan {Baixista} e nós completamos e preenchemos as lacunas.
Lembrando que alguns destes 'esqueletos' também acabam vindo de outros membros da banda.

                                                              LEONORA MÖLKA

     LMM – Você tem este espírito empreendedor, é um cara bem quisto no cenário, sempre prezando pela ética, numa cena / cidade nem sempre muito dignas neste sentido. Qual o segredo para Brunno Mariante se manter íntegro e motivado a fazer tudo o que faz?
     BM – O segredo? Muito simples: a ‘peneira’. No que consiste este método? Explico: seleciono bandas para seguir junto com as minhas próprias. Sou do tipo de cara que coloca os outros debaixo das ‘asas’, coisa que não vejo fazerem muito ultimamente. Foi legal, seguiram certas normas, tudo correu bem? Continuamos crescendo junto. Pisaram na bola, estouraram o tempo, demonstraram descaso ou desdém pelo meu trabalho? Estão fora. É isso.
     Além do quê, com a cena do jeito que é, você tem de achar saídas para ‘vender’ as bandas que representa. Sou formado em Marketing, como mencionei, então este lado empreendedor acabou se manifestando por pura necessidade.
     A verdade é que se não desisti no período compreendido entre 2005 e 2011, [ leiam mais detalhes sobre o fato adiante ], NUNCA mais vou parar, brother. Eu nunca quis ser o ‘mastermind’ de nada. A música vem primeiro. Mas descobri a duras penas que se eu não fizesse acontecer, dificilmente alguém do meu lado faria. Entende? Foi o que notei com a atitude dos músicos que Leonora tentava recrutar para o Vindicta. Rola muito machismo no cenário, mentalidade medieval, então resolvi unir forças para caminharmos juntos. Tem dado certo, tanto que no momento o Vindicta está muito mais atuante do que qualquer outra banda onde eu estou...
 

Capa do primeiro EP da banda VINDICTA com seu 'mascote Bob Esponja zumbi' [segundo o próprio Brunno Mariante!]

     LMM – Você é ferrenho defensor da cena autoral do Metal mas ao mesmo tempo atua também com bandas ‘cover’. Qual a estratégia, Brunno?
     BM - . Tenho ajudado a coordenar Festivais como o Metal Attack & ou Lethal Steel RMC, por exemplo. Hoje, com vários projetos, tenho sacadas malucas, mas bem sucedidas como o que provavelmente vou batizar de ‘Cachaça Combo’ ou ‘Cachaça Mix’...
     LMM – No que consiste isso?
     BM – É ‘casar’ as datas & paga de uma banda Multicover com uma autoral. O Cachaça Com é um projeto bem legal, onde poderei cantar canções de bandas que marcaram e fazem parte da minha vida. Mas como temos membros em comum entre as duas, dá para incluir o Vindicta como banda bônus, por exemplo. O cara leva o seu multicover desejado, mas também tem de aceitar nosso trabalho autoral.
    LMM – E você vai cantar dois shows seguidos sempre? Não é muito extenuante para um vocalista?
    BM – Sou um cara disciplinado, não tenho nenhum vício a não ser o Metal, então para mim é tranquilo. Já fiz isso antes, como você bem sabe [ com o Nitrojam & Trashers ]. Quando comecei a gravar, apanhei muito até atingir o nível atual. O que observo com músicos é que muitos são ótimos ao vivo, mas enfrentam problemas ao ter de entrar num estúdio e gravar, intimidação, é normal... Vivenciei isso com vários dos que passaram pelo Nitrojam. Quando da gravação do “Twilight Zone”, eu cheguei a gravar vocais de três faixas num único dia. É só uma questão de coordenação, experiência e autocontrole.

   LMM – Como você analisa a cena METAL brasileira de outrora com a existente atualmente? Piorou, melhorou?
   BM – Cara, acho que vai ficar impressionado com minha resposta, mas posso afirmar que melhorou. Muito. Vou explicar o porquê. Houve um período tenebroso para quem fazia música autoral em Campinas. Vivemos um boom do hard rock aqui na cidade de 2005 até pelo menos 2011. Haviam 3 bares, o Hammer Rock & mais dois somente para nos apresentarmos. Quem fazia cover de guns, bon jovi, ac/dc, tava garantido, tocava toda semana. Quem queria defender a cena Metal com o próprio trabalho, se fodia. Enfrentei esta realidade anos a fio sem apoio nenhum, mas não esmoreci. Depois, atingida a ‘estafa’ dos hard rock couves, com a geração anterior deixando de frequentar os bares, uma reciclagem de público e a abertura do Sebastian Bar [ ativo até hoje ], foi possível buscar datas alternativas, tocar nosso próprio som com mais liberdade e tranquilidade. Então, sinceramente? Pela minha experiência, entre hoje e o período em que o Nitrojam começou? Muito melhor o atual momento.
   LMM – O que te inspira a criar? Não só na música, mas em geral? E bandas? Com quais gostaria de tocar, trabalhar, dividir um palco, daqui e lá de fora?
   BM – Realizei o desejo de tocar com duas bandas que admirava bastante, o Hellish War & o SoulRiver, do Deco e do Andreas. Mas ainda tem muitas mais: VoodooPriest, Semblant, Kamala, Iced Earth, a banda de Warrel Dane, onde aliás toca um grande camarada, Thiago Oliveira, que tem feito shows no V Project comigo... Outra coisa que queria muito fazer era poder tocar com o que costumo chamar de “A Maldita Trindade” – SEPULTURA , SOULFLY & CAVALERA Conspiracy! Seria demais!
   Me inspiro muito em terror [vide “Symphony of Horror”, “Twilight Zone”], é um lado que solto com o Vindicta, até pela própria característica da banda, também gosto de filmes com elementos fantásticos, como X-Men, a saga “Underworld”... Tenho ouvido mais bandas com vocal feminino ultimamente, como Ebony Ark, conhece? Da Espanha, banda Prog extraordinária, com a qual gostaria de tocar um dia... o Revamp também, demais, melhor coisa que a Floor Jansen realizou até agora. O último Megadeth com o  Kiko Loureiro me parece muito bom, assim como o Angra e seu “Secret Garden”, com Fábio Lione, também acrescentou a entrada de Barbosa [Marcelo, substituto de Loureiro na banda ].
   LMM – Fecharei com outra perguntinha bem clichê: onde é que Brunno Mariante se vê dez anos no futuro?
   BM – Te darei uma resposta bem triste mas verdadeira: estarei do mesmo jeito que estou atualmente, defendendo e lutando pelo underground musical, provavelmente ainda em Campinas, porque é a cena que eu [NÓS] vivo em minha trajetória como artista. A única diferença está no fato de que o Nitrojam ou o Vindicta estarão onde está o VoodooPriest atualmente, o Voodoo onde o Angra chegou, e assim por diante... E o mainstream infelizmente é jogo de cartas marcadas, está fechado para nós, ao menos por enquanto. Vai havendo uma reciclagem na importância e valoração das bandas. Quando as desta geração que me formou, digamos assim, como o Metallica ou mesmo o Maiden, começarem a sumir, então o underground alça posições. Acho que a oportunidade está no underground, sempre. Nevermind o mainstream, galera.



                                                   bruno.gracioli@gmail.com


                                                       nitrojam@gmail.com

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Entrevista com o Diretor / Dramaturgo / Ator DOUGLAS CHAVES da COMPANHIA CORPO SANTO de Teatro



         Talento e vocação são características inerentes a uma série de artistas, que expressam suas habilidades de maneira usualmente precoce.
         Certamente, esta é uma definição que cabe em DOUGLAS CHAVES como uma luva. Nascido em Jales, interior de São Paulo, em 14 de maio de 1988 e apesar da pouca idade [ que o qualifica certamente como um 'wunderkind' ou 'whizkid' ] tem no currículo quase duas décadas já completadas de total dedicação ao nobre TEATRO. Douglas é uma enciclopédia viva desta Arte, hoje à frente da Companhia Corpo Santo, que completa 10 anos de existência e trabalho exatamente neste ano de 2016.
         Foi numa tarde bucólica & chuvosa que Mr. Chaves abriu sua alma para este que vos escreve para me contar sobre sua trajetória, história, projetos & planos para o futuro
[ aliás, este é mesmo o tema de seu próximo espetáculo, ainda iniciando sua gestação]:
         Leonardo Mattar Monteiro – Em primeiro lugar, parabéns a você e todos os atores envolvidos na Companhia nestes dez anos. Como é que vê em retrospecto a história da Corpo Santo e sua carreira como um todo, Douglas?
        Douglas Chaves – Foram dez anos de intensidade e trabalho incessante aos quais dediquei minhas melhores horas e amor. Tenho muito orgulho disto; mas eu comecei no Teatro na mais tenra idade...
        LMM – Onde e como começou?
        DC – Comecei na verdade a atuar em Sorocaba, 1999, era apenas um menino, mas já sabia o que queria e que o Teatro seria minha VIDA. Seguiu-se Jales, para onde fui no ano de 2003, onde continuei atuando por dois anos [ Douglas esteve numa montagem de “LULU”, do grande Frank Wedekind, nesta fase ]; aí veio o período que posso considerar como profissionalizante para minha vida não só como ator mas como amante do teatro mesmo, em Campinas: meu envolvimento com o Grupo Téspis [companhia conceituada de espetáculos da cidade citada], Inês Vianna, o Conservatório Carlos Gomes [também extremamente conceituado] & por aí vai...
       Tínhamos um grupo maldito mas temido e respeitado dentro do próprio conservatório. Enquanto o pessoalzinho mais careta se dedicava a um teatro, digamos, convencional, éramos chamados de 'os putos' lá dentro pela total vanguarda e enfrentamento que representávamos. Então resolvi batizar nossa frente de resistência de 'Os Puros'. A partir de então , montamos alguns espetáculos sempre sem apoio, dinheiro, incentivo, só com paixão e atitude envolvidas. Éramos impulsionados pela lei do desejo: quero fazer, então nada me impede, vou e faço. Adaptávamos os textos como “Fausto” para nossa pequena trupe, muitas vezes sintetizando os mesmos à nossa maneira. Assim montamos nosso “Despertar da Primavera” [ também de Wedekind ], onde o Jeff [ Jefferson Leardini, que hoje é ator da Corpo Santo ], que fazia parte da banda 'boazinha' do conservatório, foi 'cooptado' para trabalhar conosco – ele fazia a parte técnica que hoje o altamente competente Diego [ Consolini, sonoplasta, técnico de luz & marido de Wal Buarque, atriz da companhia ] desempenha. Depois vieram inúmeros trabalhos nos anos que se seguiriam: “As Criadas”,“Insônia”, “Lugar Comum”, “Lugar Incomum”... Uma das coisas mais expressivas que fizemos, foi colocar um espetáculo novo em cena todos os anos, em alguns casos MAIS de um espetáculo [ como em 2010 ou agora recentemente, com “Desterrados” e “Ofélia Morta” apresentados ambos em 2015 ]. Isso é algo pouco dito mas que deve ser valorizado. Poucas companhias se empenham em montar novos trabalhos TODOS os anos ininterruptamente em uma década.


                                         JEFFERSON LEARDINI & LUÍS BINOTTI


                                                           WAL BUARQUE

       LMM – Você menciona o teatro convencional, que eu 'convencionei' chamar de 'teatrão' [ & isto para mim nem sempre ou quase nunca seria um elogio ] em contraponto ao teatro real ou de resistência, como vejo e sinto, que é o que pratica. Vejo influências do teatro do 'gutter', sem concessões, Plínio Marcos, Jean Genet, no seu próprio trabalho. É isso? Não faria o chamado 'teatrão', por razões pessoais, ideológicas?
      DC – É isso sim. Quanto a Genet & os outros, agradeço e concordo. Sou Genet sem a criminalidade barra pesada. Realmente, se fôr responder com total sinceridade, não me interessa esse que você chama de 'teatrão'. Teatrão de verdade, Shakespeare, clássicos? Ok; mas espera aí, montar um Shakespeare, querido, tem que ter cacife. Por que Europeus, Brooks, Branagh, fazem aquelas montagens maravilhosas? Porque eles tem SÉCULOS de tradição & história neste campo. Montar um “Macbeth” como os britânicos não é uma tarefa para qualquer um. Nós ainda estamos engatinhando neste quesito. Se for passar dez, vinte anos montando “Trair & coçar...” então prefiro não fazer. Isto não é teatro pra mim. Tenho a benesse de não precisar fazer isso. Teatro é minha vida, minha paixão, não meu ganha pão, feliz ou infelizmente. Então não vou prostituir minha vida, minhas crenças, nem por fama nem muito menos por dinheiro. Há uma linha em termos de ousadia & avantgardismo que devemos sempre atravessar. Em termos de ÉTICA & estética, nunca. Ou melhor me expressando, este não é o teatro que me interessa, entende?
         LMM – Como formador de público, você acha válido pelo menos, este tipo de espetáculo convencional, começo / meio & fim, praticado por certa parcela dos artistas envolvidos na área?
         DC – Qualquer forma de teatro é válida. Só não significa que seja válida para mim. Teatro só é teatro porque temos o público. Simples assim . Tenho um espetáculo montado em 2010, “Sobre armadilhas e mentiras”, que tem uma estrutura linear... Quando da montagem do “Coletivo Macaquinhos” [ em tempo: polêmica intervenção em que os atores nus se tocavam explorando os ânus uns dos outros, que muitos tacharam de indecente, imoral & toda esta merda que a banda reacionária, hipócrita e conservadora brasileira alimentada de rede lodo há décadas adora vomitar a todo momento ] muitos vieram até mim e perguntaram se aquilo era válido, se aquilo era teatro, no que respondia: “válido e muito válido”. Enquanto esta mentalidade tacanha imperar – até mesmo no público de teatro, não se enganem, mesmo o menininho cool da unicamp carrega montes de limitações – precisamos de MUITOS macaquinhos, tanto quanto de Beckett ou do Bardo Inglês, para abrir as cabecinhas da plateia.
Mas  voltando à questão do teatro mais comportadinho e mainstream, se é honesto para eles [ aqueles que montam tais trabalhos ], acho válido. Apenas não faria. Não me diz nada.
        LMM - Você não só tem uma precocidade impressionante,mas se tornou muito bom em TUDO o que  envolve teatro. Isto já vem desde o início, este interesse por todos os aspectos da montagem, luz, cenografia, dramaturgia, direção?
       Eu acho que sim... Acho essencial que o ator não seja apenas um receptáculo de ideias dos diretores. Teatro é o domínio do ator, então tem de ter bagagem. Detesto ator que não sabe conversar. Outro dia ouvi de um rapaz que estava na plateia aqui, em uma das apresentações de "Ofélia Morta" [ Experimento oficina da Cia Corpo Santo que fechou o ano de 2015 ] : “Ah, então, tem Artaud...” Tem esta turminha pretensiosa, que faz universidade e sai dizendo o que vem à cabeça, achando que sabe tudo porque estudou cênicas aqui e ali. Sinto muito, crianças, isto não me impressiona. Ter diploma não te qualifica automaticamente como grande auteur, muito menos ator. A Elaine [Ávila Cruz, da Cia Corpo Santo ], por exemplo, é uma pusta atriz porque vai MUITO ao Teatro. Voltamos à questão da bagagem. Tem que estudar sim, mas estudar tudo. Não é só a grade curricular ou seja lá o que esse pessoal acha importante, enfim. Busco minhas inspirações em tudo, cinema, teatro, artes plásticas. Teatro é tentar, tentar, errar, até acertar. Não encaro como obrigatórias as fórmulas pré estabelecidas, e sempre fui um auto gestor. Daí o interesse por todos os meandros que envolvem o ofício teatral, entende? Não estou nem aí para imposições, estilos, regras, tabus e dogmas. Faço o MEU teatro. Com todo o respeito que devo a Stanislavsky – que é óbvio, fundamental - Brecht, Zé Celso, não me preocupo com isso quando crio o que é meu.


                                                     ELAINE ÁVILA CRUZ

       Vou contar uma história interessante e saborosa sobre este tipo de bitolação: quando da montagem de um espetáculo extremamente intrincado que a Cia Corpo Santo encenou, eu estava enfronhado até o pescoço no espetacular manifesto / ideologia / livro do grande Hans – Thies Lehmann, Postdramatisches Theater [ Teatro Pós – Dramático, aqui no Brasil, criação de Lehmann a partir do ano de 1999 ]. Dissequei suas ideias de cima a baixo durante muito tempo. Só falávamos disso, estudamos exaustivamente tudo o que o pós dramático representava, desconstruímos, remontamos tudo à nossa maneira... Como dizia a chamada para "Navalha na Carne" [ Plínio Marcos ] que o Oficina criou [ em cartaz em São Paulo ], adorei o termo usado por eles para definir a mesma, 'desmontagem'. Eu acho que é isso , tem que desmontar tudo e refazer à nossa maneira.  Mas logo após o espetáculo [des]montado,  todo mundo à minha volta só falando de 'pós dramático', eu mesmo bradei: “Tá bom, pessoalzinho, chega, vamos focar na direção totalmente contrária agora”! [ Risos ] Este sou eu, nunca parado no mesmo lugar...
       Fazer tudo não era somente uma necessidade mas uma obrigação pra mim. Sempre paguei um pau pra Beth Goulart, por exemplo. Aquela é uma artista que está perfeitamente cônscia de todas suas funções / capacidades. Vem de família toda teatral, monta seus espetáculos , monólogos, sabe fazer parcerias e faz teatro de verdade.
      Quanto à minha dramaturgia... Tenho 30 textos prontos, e mais 30 no mínimo em andamento. A primeira vez em que senti que podia fazer tudo foi com “Insônia”, monólogo meu no qual atuei, e que também escrevi, encenei & dirigi, que criei por volta do ano de 2009. De lá pra cá não parei mais mesmo.
      LMM – Você faz um teatro não linear e enigmático. Mas já me disseram [ e você mesmo parece ter confirmado isto numa conversa informal entre nós tempos atrás ] que Douglas Chaves, o diretor, tem uma agenda pessoal, uma espécie de estratégia, que se resumida seria: “montar, encenar e depois deixar morrer”.Me esclareça sobre isso – é assim mesmo que realiza seus trabalhos ?


                                                             LUÍS BINOTTI

     DC – Hmm... digamos que temos um método desenvolvido dentro do grupo que foi sendo aperfeiçoado por nós mesmos. É claro que tem muito de outras experiências mas é nosso. Nos fechamos no processo, mimamos os atores mas arrancamos deles ao máximo também. Quanto ao encena e deixa morrer após curtas temporadas, tem sim que morrer mesmo. Por quê? Porque não me vejo encenando a mesma coisa, mesmos atores ou outras trupes durante anos. Houve uma época em que lutava para manter espetáculos em evidência; quando da encenação de “Lugar Comum”, por exemplo, foi um processo de montagem longo e aí, de repente após somente TRÊS apresentações, tivemos de interromper tudo por problemas envolvendo algumas pessoas do elenco. Foi frustrante. Então em espetáculos posteriores batalhava para que as temporadas fôssem maiores, mais longas, sem apoio nem recursos, e nem sempre obtendo resultados. “Lugar Incomum” rendeu 23 gloriosas apresentações após 8 meses de preparação, mas foi uma exceção. Este controle sobre a própria obra não depende só de mim mas de uma série de outros aspectos – momento, locais para apresentação, condições favoráveis [ ou não ].
     LMM – Depois de tantos anos de experiência e realizações, há ainda alguma coisa que inspire Douglas Chaves, não somente no Teatro mas nas Artes em geral?
     DC – CLARO que há! Devemos ser sempre conscientes e gratos ao Teatro Oficina por servir de exemplo para todos nós do Teatro, por estar na vanguarda há tantas décadas. Cinema, tivemos “LOVE” de Gaspar Noé [ cineasta Franco Argentino que compartilha ideologias & estética com Doug ] este ano, “Carol” de Todd Haynes, que achei muito significativo; em Teatro, recentemente eu & o Luís [ Binotti, ator da Companhia & parceiro de Douglas há muito tempo, com quem encenou entre tantos outros “As Criadas” de Genet, pelo qual foi indicado a um prêmio no setor ] vimos “Krum”, numa montagem de Márcio Abreu primorosa, um exemplo de como fazer grande Teatro, grande timing, performances impecáveis, uso de luz branca extraordinário... Sempre me inspiro e recrio / reinvento.


                                                           LUÍS & DOUGLAS

      LMM – És um provocador, termo que aliás tomou para si e usa para definir não só a sua função dentro de projetos [ como o recente & extraordinário “Fando & Lis” ] como a de seus comparsas de cia [ Doug, Elaine, Luís, Jeff & Wal foram os 'provocadores' para quatro atores – Adolfo, Bruno, Hector & Lucas - na oficina criada que resultou em “Ofélia Morta” ]. Então para finalizar só  poderia mesmo te pedir um 'teaser', um pouquinho do que está por vir com a companhia. Podemos saber do(s) novo(s) projeto(s) da Corpo Santo em 2016?


       DC – Com o maior prazer. Iniciamos as comemorações de dez anos de companhia já agora nos dias 23 & 24 de Janeiro, com novas apresentações de “Ofélia Morta”; podemos ter também um curto retorno de outros espetáculos da cia como “Desterrados”... Mas o foco mesmo está em um novo trabalho, que deve ser nosso primeiro texto colaborativo e cujo processo em grupo se inicia a qualquer momento logo neste começo de ano. Cheguei a escrever três cenas para o mesmo, mas por um golpe do destino e a não feitura de um backup do meu novo celular se foram [ risos ]. Agora começaremos do zero, e talvez seja melhor assim. Estarei na direção, com Adolfo [ Barreto, ator de “Fando & Lis” e “Ofélia Morta” ] sendo o provocador desta vez. E mais, retorno a este espetáculo em cena também, o que me deu tesão renovado, estou muito empolgado em voltar a atuar, o que não fazia desde “Pequenos Desastres”,não é... Teremos um elenco maior que o das últimas montagens que fizemos, com uma querida atriz, Ana Amorim, voltando após tantos anos longe dos palcos conosco, estou muito feliz com isso, mais o elenco atual da Corpo Santo. A história gira em torno da projeção de um futuro de dez anos. Amigos se reencontram e descobrem o que cada um fez [ ou não fez ] neste período de uma década. O título muito provavelmente será “DÈS QUE” ou “BIENTÔT” [ algo como 'tão breve', ou 'tão logo', em Francês ]. Quem viver, verá.


                                                               ANA AMORIM


                                                          ADOLFO BARRETO