domingo, 17 de janeiro de 2016

Interview com o Músico da cena Metal BRUNNO MARIANTE

             
             BRUNNO MARIANTE é um daqueles caras com quem você simpatiza logo de cara. Abstêmio, simpatizante da causa animal, ético, empreendedor, e um amante incorrigível do estilo musical mais honesto e verdadeiro do Mundo, o METAL. Como se não bastasse tudo isso, este artista é atuante num cenário problemático como é o da cidade de Campinas.        Começa sua carreira como aluno de um dos maiores professores / vocalistas do País [Fabiano Negri], consolida onze anos à frente da banda NITROJAM [que Mariante brinca dizendo que considera quase sua ‘banda solo’, por causa dos percalços & mudanças de formação constantes vividos pela mesma], num período hostil e desfavorável para o Metal na cidade [de meados dos anos 2000 até anos recentes atrás] e em 2015, vive certamente seu melhor ano, com diversas bandas [V Project, Cachaça Com, Nitrojam, Vindicta, Trashers] tendo o privilégio de contar com seus trabalhos, tanto como vocalista quanto como compositor.
           Foi em seu home studio com vista para a cidade, e sua ‘petite chienne’ Belinha nos observando, que Brunno abriu sua alma e contou muita coisa do que já rolou em sua carreira do que ainda está por vir... A seguir a transcrição de nosso bate papo: 
 
          Leonardo Mattar Monteiro – Antes de mais nada, temos perdido grandes figuras da Música logo neste fim / início de anos. Philty ‘Animal’ Taylor, Lemmy Kilmister [praticamente o grupo Motörhead inteiro], David Bowie, só para citar os mais notórios. Estes caras te influenciaram? Tem importância na sua história de vida?
          Brunno Mariante – Tem e muita. David Bowie teve uma importância vital no meu processo de formação como músico. Fui aluno do Fabiano [Negri, Ex. Cromat, Escola Cultura Pop]; meu domínio da técnica na época ainda era muito rudimentar, então procurava vocais e timbres que me fossem melhores e confortáveis. Eis que o Fabiano me passava canções do Mestre Bowie para ensaiar. Então, ao invés de passar Chico Buarque, ouvia e cantava Bowie! Recentemente fui criticado numa rede social ao comentar sobre a morte de David, disseram algo como: “Mas você nem ouve Bowie, Brunno”! Só que pouca gente sabe dos meus primórdios como estudante de música. Então, mesmo não ouvindo mais seu trabalho, Bowie tem sim muita importância em minha formação.
        Agora, quanto ao Lemmy, Phil "Annimal" Taylor, é até óbvio: Motörhead foi uma das primeiras bandas que ouvi em toda minha história. Lembro-me de ter ouvido o baixo estourado e aquela voz rouca, suja, e pensava: “Será que o cara emposta a voz e canta assim ou ela é deste jeito mesmo”? Nem tenho muito o que dizer, claro que marcou minha vida.
       LMM – E como entra  a Música & o Metal em sua vida então? Pode parecer uma pergunta meio clichê, mas já ouvi de alguns músicos que não se lembravam de exatamente quando & como... Lembra-se quando e qual foi o primeiro álbum que ouviu?
       BM - A banda que me introduz ao METAL, IRON MAIDEN [nota deste que vos fala: para mim também, em 1983, álbum “Piece of Mind”; a abertura de Nicko para “Where Eagles Dare” me marcou de forma indescritível. Para Mariante foi...] O primeiro álbum? “Number of the Beast”. Para mim ainda o maior e melhor trabalho do grupo. Tinha doze anos de idade [same same, Brunno, quando ouvi Iron pela 1ª vez =], guardava o dinheiro que tinha para finalmente comprar o “Number...” já em CD! Minha segunda ‘bolachinha’ foi “Refuse / Resist” do nosso SEPULTURA!
        LMM - Então desde o inicio, o Metal já estava presente em sua vida...
        BM – Pois é... Mas ninguém me apoiava em minha família. Todo mundo tentou me dissuadir. E quanto mais eles tentavam, mais eu mergulhava nesta minha paixão. Formei-me em Artes Visuais & Design, posteriormente também em Marketing, mas a música seguia paralelamente, sempre.  Como já mencionado antes, tive aulas com o Negri na escola Cromat, formei minha primeira banda, Wet Floor, um tempo depois, aí veio o período com o Nitrojam de 2005 até hoje...
        LMM – Apesar de tantos percalços até agora, o Nitrojam, me parece, vive seu momento mais significativo. Andreas Dehn [ex-Kamala] e Mauricio Figueiredo [ex-Maestrik] na formação atual, um álbum recente admirável [ “Twilight Zone” ], seu vocal mais seguro, em clara evolução. Quais são os planos futuros para o grupo?

       BM - Sobre este ano, precisamos consolidar nossa formação. Andreas se incorporou muito bem ao time, agora está retornando à sua casa original [o SoulRiver] também, temos três composições brand new, "Ready to die” [que já foi “Wings of Liberty”, até chegou a ser tocada ao vivo algumas vezes, na opinião deste que vos escreve, uma das melhores já criadas por Mariante], "Fighting Force” e “Beta Ray”; além destas, tenho no meu home studio pelo menos esqueletos para mais umas 16, 17 faixas...

Capa do Álbum TWILIGHT ZONE da banda NITROJAM realizada por FERNANDO RICCIARDULLI  [ Estúdio Chromatic Chaos do México ]
     LMM – E como foi trabalhar com Ricardo Palma em Estúdio?
     BM – Ricardo Palma é foda! Tocou todos os baixos no "Twilight Zone" além de gravar & produzir o mesmo em tempo recorde. Foi um milagre. Não imagino trabalhar com um produtor no Brasil melhor que ele. Seu know how é ducaralho. O cara trabalhou em New York com o técnico de som que fazia mesa para o DREAM THEATER. Por aí você faz uma ideia... [ não à toa Fabiano Negri também trabalha quase sempre com Palma ].


    O extraordinário músico / produtor RICARDO PALMA [Estúdio Minster , Campinas]
      LMM – Como compõe? Sozinho no estúdio?
      BM – Compor é um processo engraçado... Apesar de sempre seguir o mesmo modus operandi [Brunno é extremamente disciplinado, trabalha as bases musicais na guitarra, depois pensa as linhas vocais para somente então desenvolver / encaixar as letras], a maneira como as ideias surgem é interessante. Às vezes tô no trânsito, surge um riff na cabeça, ligo o gravador e canto de qualquer jeito! [risos] Aí só depois quando chego em casa corro pra passar pro Guitar Pro, Easy Drummer, etc, e começo o processo de criação propriamente dito! Então eu e o Andreas coordenamos tudo entre o home studio dele e o meu.

      LMM – Se tem uma coleção tão grande de novas composições, podemos esperar um novo álbum do Nitrojam para este ano?
      BM – Acho que não... Somente em 2017 ou 2018. Antes, temos que fechar nossa formação atual. Cogitamos alguns bateristas, como Rikk M. e Nílton Lucena, mas nada está acertado ainda. Por enquanto, meu foco e dedicação maiores estão com o Vindicta, este sim deve lançar um EP muito em breve...Além disso eu estou com uma pegada mais ‘raçuda’ mesmo ultimamente. Uma volta às raízes do grupo, com mais experiência e técnica. Tento fugir dos clichês pré-estabelecidos. Tem uma história hilária sobre isso: recentemente, o Vindicta foi ‘rejeitado’ por um sujeito que administra uma página de Curitiba que autodenominei ‘DESUnião do Metal Brasil’. Qual a razão, segundo ele? Porque não seríamos ‘Doom’ o suficiente para a página dele – ou seja, não tiramos fotinhos com árvores secas, não sucumbimos aos clichês. Nossa sessão de fotos, realizada por Rita Leite, foi em PB, em cima de uma HD... Gente de mentalidade tacanha e limitada, mas enfim...
      LMM – Ok, então fale sobre o Vindicta em 2016.
      BM – A banda está de vento em popa; já começamos o ano com vários shows marcados. Dia 6 de Março estaremos no Sebastian Bar com um cast de bandas muito bom, Holder of Souls, X-Empire, Fenrir’s Scar... Além do quê, também temos ideias já formalizadas de composições que fechariam quase dois álbuns... Umas 18 faixas pelo menos...
      LMM – Uau ! E vão lançar isto tudo de uma vez?
      BM – Não! Selecionaremos as melhores canções e fecharemos num EP.
      LMM – Sua gata Leonora [Mölka, baterista] toca contigo no Vindicta. Como é a relação profissional, rolam aquelas tretas típicas de banda com ela também?
      BM – Leonora é de Áries, eu de Touro... Mas sou um Taurino atípico. Não sei como, mas rola tudo as mil maravilhas. Somos mais ‘parceiros de crime’, cúmplices com as ideias para a banda, do que antagonistas. Temos conflitos na banda, mas posso garantir que NÃO são com ela! [risos]
     No Nitrojam me acostumei a escrever, fazer tudo praticamente sozinho. Com o Vindicta, é muito diferente. Para começar, o Vindicta é a banda da Leonora. Apesar de ter sido convidado para ser o vocalista, o processo de composição é coletivo. Depois da entrada de um segundo guita, tudo tem funcionado melhor. E Rick [ Pozzy ] é o ‘nosso’ Adrian Smith; ele é o cara mais ‘clássico’ do grupo, somando muito ao nosso som. Comecei na banda criando muita coisa musicalmente. Mas atualmente, sou mais letrista e frontman mesmo. Quem mais compõe no momento os principais esqueletos das músicas da banda toda, é o Jonathan {Baixista} e nós completamos e preenchemos as lacunas.
Lembrando que alguns destes 'esqueletos' também acabam vindo de outros membros da banda.

                                                              LEONORA MÖLKA

     LMM – Você tem este espírito empreendedor, é um cara bem quisto no cenário, sempre prezando pela ética, numa cena / cidade nem sempre muito dignas neste sentido. Qual o segredo para Brunno Mariante se manter íntegro e motivado a fazer tudo o que faz?
     BM – O segredo? Muito simples: a ‘peneira’. No que consiste este método? Explico: seleciono bandas para seguir junto com as minhas próprias. Sou do tipo de cara que coloca os outros debaixo das ‘asas’, coisa que não vejo fazerem muito ultimamente. Foi legal, seguiram certas normas, tudo correu bem? Continuamos crescendo junto. Pisaram na bola, estouraram o tempo, demonstraram descaso ou desdém pelo meu trabalho? Estão fora. É isso.
     Além do quê, com a cena do jeito que é, você tem de achar saídas para ‘vender’ as bandas que representa. Sou formado em Marketing, como mencionei, então este lado empreendedor acabou se manifestando por pura necessidade.
     A verdade é que se não desisti no período compreendido entre 2005 e 2011, [ leiam mais detalhes sobre o fato adiante ], NUNCA mais vou parar, brother. Eu nunca quis ser o ‘mastermind’ de nada. A música vem primeiro. Mas descobri a duras penas que se eu não fizesse acontecer, dificilmente alguém do meu lado faria. Entende? Foi o que notei com a atitude dos músicos que Leonora tentava recrutar para o Vindicta. Rola muito machismo no cenário, mentalidade medieval, então resolvi unir forças para caminharmos juntos. Tem dado certo, tanto que no momento o Vindicta está muito mais atuante do que qualquer outra banda onde eu estou...
 

Capa do primeiro EP da banda VINDICTA com seu 'mascote Bob Esponja zumbi' [segundo o próprio Brunno Mariante!]

     LMM – Você é ferrenho defensor da cena autoral do Metal mas ao mesmo tempo atua também com bandas ‘cover’. Qual a estratégia, Brunno?
     BM - . Tenho ajudado a coordenar Festivais como o Metal Attack & ou Lethal Steel RMC, por exemplo. Hoje, com vários projetos, tenho sacadas malucas, mas bem sucedidas como o que provavelmente vou batizar de ‘Cachaça Combo’ ou ‘Cachaça Mix’...
     LMM – No que consiste isso?
     BM – É ‘casar’ as datas & paga de uma banda Multicover com uma autoral. O Cachaça Com é um projeto bem legal, onde poderei cantar canções de bandas que marcaram e fazem parte da minha vida. Mas como temos membros em comum entre as duas, dá para incluir o Vindicta como banda bônus, por exemplo. O cara leva o seu multicover desejado, mas também tem de aceitar nosso trabalho autoral.
    LMM – E você vai cantar dois shows seguidos sempre? Não é muito extenuante para um vocalista?
    BM – Sou um cara disciplinado, não tenho nenhum vício a não ser o Metal, então para mim é tranquilo. Já fiz isso antes, como você bem sabe [ com o Nitrojam & Trashers ]. Quando comecei a gravar, apanhei muito até atingir o nível atual. O que observo com músicos é que muitos são ótimos ao vivo, mas enfrentam problemas ao ter de entrar num estúdio e gravar, intimidação, é normal... Vivenciei isso com vários dos que passaram pelo Nitrojam. Quando da gravação do “Twilight Zone”, eu cheguei a gravar vocais de três faixas num único dia. É só uma questão de coordenação, experiência e autocontrole.

   LMM – Como você analisa a cena METAL brasileira de outrora com a existente atualmente? Piorou, melhorou?
   BM – Cara, acho que vai ficar impressionado com minha resposta, mas posso afirmar que melhorou. Muito. Vou explicar o porquê. Houve um período tenebroso para quem fazia música autoral em Campinas. Vivemos um boom do hard rock aqui na cidade de 2005 até pelo menos 2011. Haviam 3 bares, o Hammer Rock & mais dois somente para nos apresentarmos. Quem fazia cover de guns, bon jovi, ac/dc, tava garantido, tocava toda semana. Quem queria defender a cena Metal com o próprio trabalho, se fodia. Enfrentei esta realidade anos a fio sem apoio nenhum, mas não esmoreci. Depois, atingida a ‘estafa’ dos hard rock couves, com a geração anterior deixando de frequentar os bares, uma reciclagem de público e a abertura do Sebastian Bar [ ativo até hoje ], foi possível buscar datas alternativas, tocar nosso próprio som com mais liberdade e tranquilidade. Então, sinceramente? Pela minha experiência, entre hoje e o período em que o Nitrojam começou? Muito melhor o atual momento.
   LMM – O que te inspira a criar? Não só na música, mas em geral? E bandas? Com quais gostaria de tocar, trabalhar, dividir um palco, daqui e lá de fora?
   BM – Realizei o desejo de tocar com duas bandas que admirava bastante, o Hellish War & o SoulRiver, do Deco e do Andreas. Mas ainda tem muitas mais: VoodooPriest, Semblant, Kamala, Iced Earth, a banda de Warrel Dane, onde aliás toca um grande camarada, Thiago Oliveira, que tem feito shows no V Project comigo... Outra coisa que queria muito fazer era poder tocar com o que costumo chamar de “A Maldita Trindade” – SEPULTURA , SOULFLY & CAVALERA Conspiracy! Seria demais!
   Me inspiro muito em terror [vide “Symphony of Horror”, “Twilight Zone”], é um lado que solto com o Vindicta, até pela própria característica da banda, também gosto de filmes com elementos fantásticos, como X-Men, a saga “Underworld”... Tenho ouvido mais bandas com vocal feminino ultimamente, como Ebony Ark, conhece? Da Espanha, banda Prog extraordinária, com a qual gostaria de tocar um dia... o Revamp também, demais, melhor coisa que a Floor Jansen realizou até agora. O último Megadeth com o  Kiko Loureiro me parece muito bom, assim como o Angra e seu “Secret Garden”, com Fábio Lione, também acrescentou a entrada de Barbosa [Marcelo, substituto de Loureiro na banda ].
   LMM – Fecharei com outra perguntinha bem clichê: onde é que Brunno Mariante se vê dez anos no futuro?
   BM – Te darei uma resposta bem triste mas verdadeira: estarei do mesmo jeito que estou atualmente, defendendo e lutando pelo underground musical, provavelmente ainda em Campinas, porque é a cena que eu [NÓS] vivo em minha trajetória como artista. A única diferença está no fato de que o Nitrojam ou o Vindicta estarão onde está o VoodooPriest atualmente, o Voodoo onde o Angra chegou, e assim por diante... E o mainstream infelizmente é jogo de cartas marcadas, está fechado para nós, ao menos por enquanto. Vai havendo uma reciclagem na importância e valoração das bandas. Quando as desta geração que me formou, digamos assim, como o Metallica ou mesmo o Maiden, começarem a sumir, então o underground alça posições. Acho que a oportunidade está no underground, sempre. Nevermind o mainstream, galera.



                                                   bruno.gracioli@gmail.com


                                                       nitrojam@gmail.com

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