Foi em seu home studio
com vista para a cidade, e sua ‘petite chienne’ Belinha nos
observando, que Brunno abriu sua alma e contou muita coisa do que já rolou em sua carreira do
que ainda está por vir... A seguir a transcrição de nosso bate papo:
Leonardo Mattar Monteiro – Antes de
mais nada, temos perdido grandes figuras da Música logo neste fim / início de
anos. Philty ‘Animal’ Taylor, Lemmy Kilmister [praticamente o grupo Motörhead
inteiro], David Bowie, só para citar os mais notórios. Estes caras te
influenciaram? Tem importância na sua história de vida?
Brunno Mariante – Tem e muita. David Bowie
teve uma importância vital no meu processo de formação como músico. Fui aluno
do Fabiano [Negri, Ex. Cromat, Escola Cultura Pop]; meu domínio da técnica na época ainda
era muito rudimentar, então procurava vocais e timbres que me fossem melhores e
confortáveis. Eis que o Fabiano me passava canções do Mestre Bowie para
ensaiar. Então, ao invés de passar Chico Buarque, ouvia e cantava Bowie! Recentemente
fui criticado numa rede social ao comentar sobre a morte de David, disseram
algo como: “Mas você nem ouve Bowie, Brunno”! Só que pouca gente sabe dos meus
primórdios como estudante de música. Então, mesmo não ouvindo mais seu
trabalho, Bowie tem sim muita importância em minha formação.
Agora, quanto ao Lemmy, Phil "Annimal" Taylor, é
até óbvio: Motörhead foi uma das primeiras bandas que ouvi em toda minha
história. Lembro-me de ter ouvido o baixo estourado e aquela voz rouca, suja, e
pensava: “Será que o cara emposta a voz e canta assim ou ela é deste jeito
mesmo”? Nem tenho muito o que dizer, claro que marcou minha vida.
LMM – E como entra a Música & o Metal em sua vida então? Pode
parecer uma pergunta meio clichê, mas já ouvi de alguns músicos que não se lembravam
de exatamente quando & como... Lembra-se quando e qual foi o primeiro álbum
que ouviu?
BM - A banda que me introduz ao METAL,
IRON MAIDEN [nota deste que vos fala: para mim também, em 1983, álbum “Piece of
Mind”; a abertura de Nicko para “Where Eagles Dare” me marcou de forma
indescritível. Para Mariante foi...] O primeiro álbum? “Number of the Beast”.
Para mim ainda o maior e melhor trabalho do grupo. Tinha doze anos de idade [same
same, Brunno, quando ouvi Iron pela 1ª vez =], guardava o dinheiro que tinha
para finalmente comprar o “Number...” já em CD! Minha segunda ‘bolachinha’ foi
“Refuse / Resist” do nosso SEPULTURA!
LMM - Então desde o inicio, o Metal já
estava presente em sua vida...
BM – Pois é... Mas ninguém me apoiava
em minha família. Todo mundo tentou me dissuadir. E quanto mais eles tentavam, mais eu mergulhava nesta
minha paixão. Formei-me em Artes Visuais & Design, posteriormente também em
Marketing, mas a música seguia paralelamente, sempre. Como já mencionado antes, tive aulas com o
Negri na escola Cromat, formei minha primeira banda, Wet Floor, um tempo
depois, aí veio o período com o Nitrojam de 2005 até hoje...
LMM – Apesar de tantos percalços até
agora, o Nitrojam, me parece, vive seu momento mais significativo.
Andreas Dehn [ex-Kamala] e Mauricio Figueiredo [ex-Maestrik] na formação
atual, um álbum recente admirável [
“Twilight Zone” ], seu vocal mais seguro, em clara evolução.
Quais são os planos futuros para o grupo?
BM - Sobre este ano, precisamos consolidar
nossa formação. Andreas se incorporou muito bem ao time, agora está retornando
à sua casa original [o SoulRiver] também, temos três composições brand new,
"Ready to die” [que já foi “Wings of Liberty”, até chegou a ser tocada ao vivo algumas vezes, na opinião deste que vos escreve,
uma das melhores já criadas por Mariante], "Fighting Force” e “Beta Ray”; além destas,
tenho no meu home studio pelo menos esqueletos para mais umas 16, 17 faixas...
Capa do Álbum TWILIGHT ZONE da banda NITROJAM realizada por FERNANDO RICCIARDULLI [ Estúdio Chromatic Chaos do México ]
LMM – E como foi trabalhar com Ricardo Palma em Estúdio?
LMM – E como foi trabalhar com Ricardo Palma em Estúdio?
BM – Ricardo Palma é foda! Tocou todos os
baixos no "Twilight Zone" além de gravar & produzir o mesmo em tempo recorde. Foi
um milagre. Não imagino trabalhar com um produtor no Brasil melhor que ele. Seu
know how é ducaralho. O cara trabalhou em New York com o técnico de som que
fazia mesa para o DREAM THEATER. Por aí você faz uma ideia... [ não à toa
Fabiano Negri também trabalha quase sempre com Palma ].
LMM – Como compõe? Sozinho no estúdio?
BM – Compor é um processo engraçado...
Apesar de sempre seguir o mesmo modus operandi [Brunno é extremamente
disciplinado, trabalha as bases musicais na guitarra, depois pensa as linhas
vocais para somente então desenvolver / encaixar as letras], a maneira como as
ideias surgem é interessante. Às vezes tô no trânsito, surge um riff na cabeça,
ligo o gravador e canto de qualquer jeito! [risos] Aí só depois quando chego em
casa corro pra passar pro Guitar Pro, Easy Drummer, etc, e começo o processo de
criação propriamente dito! Então eu e o Andreas coordenamos tudo entre o home
studio dele e o meu.
LMM – Se tem uma coleção tão grande de
novas composições, podemos esperar um novo álbum do Nitrojam para este ano?
BM – Acho que não... Somente em 2017 ou 2018. Antes,
temos que fechar nossa formação atual. Cogitamos alguns bateristas, como Rikk
M. e Nílton Lucena, mas nada está acertado ainda. Por enquanto, meu foco e
dedicação maiores estão com o Vindicta, este sim deve lançar um EP muito em
breve...Além disso eu estou com uma pegada mais
‘raçuda’ mesmo ultimamente. Uma volta às raízes do grupo, com mais experiência
e técnica. Tento fugir dos clichês pré-estabelecidos. Tem uma história hilária
sobre isso: recentemente, o Vindicta foi ‘rejeitado’ por um sujeito que
administra uma página de Curitiba que autodenominei ‘DESUnião do Metal Brasil’.
Qual a razão, segundo ele? Porque não seríamos ‘Doom’ o suficiente para a
página dele – ou seja, não tiramos fotinhos com árvores secas, não sucumbimos aos
clichês. Nossa sessão de fotos, realizada por Rita Leite, foi em PB, em cima de
uma HD... Gente de mentalidade tacanha e limitada, mas enfim...
LMM – Ok, então fale sobre o Vindicta em
2016.
BM – A banda está de vento em popa; já
começamos o ano com vários shows marcados. Dia 6 de Março estaremos no Sebastian Bar com
um cast de bandas muito bom, Holder of Souls, X-Empire, Fenrir’s Scar... Além
do quê, também temos ideias já formalizadas de composições que fechariam quase
dois álbuns... Umas 18 faixas pelo menos...
LMM – Uau ! E vão lançar isto tudo de uma
vez?
BM – Não! Selecionaremos as melhores
canções e fecharemos num EP.
LMM – Sua gata Leonora [Mölka, baterista]
toca contigo no Vindicta. Como é a relação profissional, rolam aquelas tretas
típicas de banda com ela também?
BM – Leonora é de Áries, eu de Touro... Mas
sou um Taurino atípico. Não sei como, mas rola tudo as mil maravilhas. Somos
mais ‘parceiros de crime’, cúmplices com as ideias para a banda, do que
antagonistas. Temos conflitos na banda, mas posso garantir que NÃO são com ela!
[risos]
No Nitrojam me acostumei a escrever, fazer
tudo praticamente sozinho. Com o Vindicta, é muito diferente. Para
começar, o
Vindicta é a banda da Leonora. Apesar de ter sido convidado para ser o
vocalista, o processo de composição é coletivo. Depois da entrada de um
segundo
guita, tudo tem funcionado melhor. E Rick [ Pozzy ] é o ‘nosso’ Adrian
Smith;
ele é o cara mais ‘clássico’ do grupo, somando muito ao nosso som.
Comecei na
banda criando muita coisa musicalmente. Mas atualmente, sou mais
letrista e
frontman mesmo. Quem mais compõe no momento os principais esqueletos das
músicas da banda toda, é o Jonathan {Baixista} e nós completamos e preenchemos as
lacunas.
Lembrando que alguns destes 'esqueletos' também acabam vindo de outros membros da banda.
LEONORA MÖLKA
LMM – Você tem este espírito empreendedor,
é um cara bem quisto no cenário, sempre prezando pela ética, numa cena / cidade
nem sempre muito dignas neste sentido. Qual o segredo para Brunno Mariante se
manter íntegro e motivado a fazer tudo o que faz?
BM – O segredo? Muito simples: a
‘peneira’. No que consiste este método? Explico: seleciono bandas para seguir
junto com as minhas próprias. Sou do tipo de cara que coloca os outros debaixo
das ‘asas’, coisa que não vejo fazerem muito ultimamente. Foi legal, seguiram
certas normas, tudo correu bem? Continuamos crescendo junto. Pisaram na bola,
estouraram o tempo, demonstraram descaso ou desdém pelo meu trabalho? Estão
fora. É isso.
Além do quê, com a cena do jeito que é,
você tem de achar saídas para ‘vender’ as bandas que representa. Sou formado em
Marketing, como mencionei, então este lado empreendedor acabou se manifestando
por pura necessidade.
A verdade é que se não desisti no período
compreendido entre 2005 e 2011, [ leiam mais detalhes sobre o fato adiante ],
NUNCA mais vou parar, brother. Eu nunca quis ser o ‘mastermind’ de nada. A
música vem primeiro. Mas descobri a duras penas que se eu não fizesse
acontecer, dificilmente alguém do meu lado faria. Entende? Foi o que notei com
a atitude dos músicos que Leonora tentava recrutar para o Vindicta. Rola muito
machismo no cenário, mentalidade medieval, então resolvi unir forças para
caminharmos juntos. Tem dado certo, tanto que no momento o Vindicta está muito
mais atuante do que qualquer outra banda onde eu estou...
Capa do primeiro EP da banda VINDICTA com seu 'mascote Bob Esponja zumbi' [segundo o próprio Brunno Mariante!]
LMM – Você é ferrenho defensor da cena
autoral do Metal mas ao mesmo tempo atua também com bandas ‘cover’. Qual a
estratégia, Brunno?
BM - . Tenho ajudado a coordenar Festivais
como o Metal Attack & ou Lethal Steel RMC, por exemplo. Hoje, com vários
projetos, tenho sacadas malucas, mas bem sucedidas como o que provavelmente vou
batizar de ‘Cachaça Combo’ ou ‘Cachaça Mix’...
LMM – No que consiste isso?
BM – É ‘casar’ as datas & paga de uma
banda Multicover com uma autoral. O Cachaça Com é um projeto bem legal, onde
poderei cantar canções de bandas que marcaram e fazem parte da minha vida. Mas
como temos membros em comum entre as duas, dá para incluir o Vindicta como
banda bônus, por exemplo. O cara leva o seu multicover desejado, mas também tem
de aceitar nosso trabalho autoral.
LMM – E você vai cantar dois shows seguidos
sempre? Não é muito extenuante para um vocalista?
BM – Sou um cara disciplinado, não tenho
nenhum vício a não ser o Metal, então para mim é tranquilo. Já fiz isso antes,
como você bem sabe [ com o Nitrojam & Trashers ]. Quando comecei a gravar,
apanhei muito até atingir o nível atual. O que observo com músicos é que muitos
são ótimos ao vivo, mas enfrentam problemas ao ter de entrar num estúdio e
gravar, intimidação, é normal... Vivenciei isso com vários dos que passaram
pelo Nitrojam. Quando da gravação do “Twilight Zone”, eu cheguei a gravar
vocais de três faixas num único dia. É só uma questão de coordenação,
experiência e autocontrole.
LMM – Como você analisa a cena METAL
brasileira de outrora com a existente atualmente? Piorou, melhorou?
BM – Cara, acho que vai ficar impressionado
com minha resposta, mas posso afirmar que melhorou. Muito. Vou explicar o porquê. Houve um período tenebroso para quem fazia música autoral em Campinas. Vivemos
um boom do hard rock aqui na cidade de 2005 até pelo menos 2011. Haviam 3
bares, o Hammer Rock & mais dois somente para nos apresentarmos. Quem fazia
cover de guns, bon jovi, ac/dc, tava garantido, tocava toda semana. Quem queria
defender a cena Metal com o próprio trabalho, se fodia. Enfrentei esta
realidade anos a fio sem apoio nenhum, mas não esmoreci. Depois, atingida a
‘estafa’ dos hard rock couves, com a geração anterior deixando de frequentar os
bares, uma reciclagem de público e a abertura do Sebastian Bar [ ativo até
hoje ], foi possível buscar datas alternativas, tocar nosso próprio som com
mais liberdade e tranquilidade. Então, sinceramente? Pela minha experiência,
entre hoje e o período em que o Nitrojam começou? Muito melhor o atual momento.
LMM – O que te inspira a criar? Não só na
música, mas em geral? E bandas? Com quais gostaria de tocar, trabalhar, dividir
um palco, daqui e lá de fora?
BM – Realizei o desejo de tocar com duas
bandas que admirava bastante, o Hellish War & o SoulRiver, do Deco e do
Andreas. Mas ainda tem muitas mais: VoodooPriest, Semblant, Kamala, Iced Earth,
a banda de Warrel Dane, onde aliás toca um grande camarada, Thiago Oliveira,
que tem feito shows no V Project comigo... Outra coisa que queria muito fazer era poder tocar com o que costumo chamar de “A Maldita Trindade”
– SEPULTURA , SOULFLY & CAVALERA Conspiracy! Seria demais!
Me inspiro muito em terror [vide “Symphony
of Horror”, “Twilight Zone”], é um lado que solto com o Vindicta, até pela
própria característica da banda, também gosto de filmes com elementos
fantásticos, como X-Men, a saga “Underworld”... Tenho ouvido mais bandas com
vocal feminino ultimamente, como Ebony Ark, conhece? Da Espanha, banda Prog
extraordinária, com a qual gostaria de tocar um dia... o Revamp também, demais,
melhor coisa que a Floor Jansen realizou até agora. O último Megadeth com o Kiko Loureiro me parece muito bom, assim como
o Angra e seu “Secret Garden”, com Fábio Lione, também acrescentou a entrada de
Barbosa [Marcelo, substituto de Loureiro na banda ].
LMM – Fecharei com outra perguntinha bem
clichê: onde é que Brunno Mariante se vê dez anos no futuro?
BM – Te darei uma resposta bem triste mas
verdadeira: estarei do mesmo jeito que estou atualmente, defendendo e lutando
pelo underground musical, provavelmente ainda em Campinas, porque é a cena que
eu [NÓS] vivo em minha trajetória como artista. A única diferença está no fato de que o Nitrojam ou o Vindicta
estarão onde está o VoodooPriest atualmente, o Voodoo onde o Angra chegou, e
assim por diante... E o mainstream infelizmente é jogo de cartas marcadas, está
fechado para nós, ao menos por enquanto. Vai havendo uma reciclagem na importância
e valoração das bandas. Quando as desta geração que me formou, digamos assim,
como o Metallica ou mesmo o Maiden, começarem a sumir, então o underground alça
posições. Acho que a oportunidade está no underground, sempre. Nevermind o
mainstream, galera.
bruno.gracioli@gmail.com
nitrojam@gmail.com









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