Talento e vocação
são características inerentes a uma série de artistas, que expressam suas
habilidades de maneira usualmente precoce.
Certamente, esta
é uma definição que cabe em DOUGLAS CHAVES como uma luva. Nascido em Jales,
interior de São Paulo, em 14 de maio de 1988 e apesar da pouca idade [ que o
qualifica certamente como um 'wunderkind' ou 'whizkid' ] tem no currículo quase
duas décadas já completadas de total dedicação ao nobre TEATRO. Douglas é uma
enciclopédia viva desta Arte, hoje à frente da Companhia Corpo Santo, que
completa 10 anos de existência e trabalho exatamente neste ano de 2016.
Foi numa tarde
bucólica & chuvosa que Mr. Chaves abriu sua alma para este que vos escreve
para me contar sobre sua trajetória, história, projetos & planos para o
futuro
[ aliás, este é mesmo o tema de seu próximo espetáculo, ainda
iniciando sua gestação]:
Leonardo Mattar
Monteiro – Em primeiro lugar, parabéns a você e todos os atores envolvidos na
Companhia nestes dez anos. Como é que vê em retrospecto a história da Corpo
Santo e sua carreira como um todo, Douglas?
Douglas Chaves –
Foram dez anos de intensidade e trabalho incessante aos quais dediquei minhas
melhores horas e amor. Tenho muito orgulho disto; mas eu comecei no Teatro na
mais tenra idade...
LMM – Onde e como
começou?
DC – Comecei na
verdade a atuar em Sorocaba, 1999, era apenas um menino, mas já sabia o que
queria e que o Teatro seria minha VIDA. Seguiu-se Jales, para onde fui no ano de 2003, onde
continuei atuando por dois anos [ Douglas esteve numa montagem de “LULU”, do grande Frank
Wedekind, nesta fase ]; aí veio o período que posso considerar como
profissionalizante para minha vida não só como ator mas como amante do teatro
mesmo, em Campinas: meu envolvimento com o Grupo Téspis [companhia conceituada
de espetáculos da cidade citada], Inês Vianna, o Conservatório Carlos Gomes
[também extremamente conceituado] & por aí vai...
Tínhamos um grupo
maldito mas temido e respeitado dentro do próprio conservatório. Enquanto o
pessoalzinho mais careta se dedicava a um teatro, digamos, convencional, éramos
chamados de 'os putos' lá dentro pela total vanguarda e enfrentamento que
representávamos. Então resolvi batizar nossa frente de resistência de 'Os
Puros'. A partir de então , montamos alguns espetáculos sempre sem apoio,
dinheiro, incentivo, só com paixão e atitude envolvidas. Éramos impulsionados
pela lei do desejo: quero fazer, então nada me impede, vou e faço. Adaptávamos
os textos como “Fausto” para nossa pequena trupe, muitas vezes sintetizando os
mesmos à nossa maneira. Assim montamos nosso “Despertar da Primavera” [ também
de Wedekind ], onde o Jeff [ Jefferson Leardini, que hoje é ator da Corpo Santo
], que fazia parte da banda 'boazinha' do conservatório, foi 'cooptado' para
trabalhar conosco – ele fazia a parte técnica que hoje o altamente competente
Diego [ Consolini, sonoplasta, técnico de luz & marido de Wal Buarque,
atriz da companhia ] desempenha. Depois vieram inúmeros trabalhos nos anos que
se seguiriam: “As Criadas”,“Insônia”, “Lugar Comum”, “Lugar Incomum”... Uma das
coisas mais expressivas que fizemos, foi colocar um espetáculo novo em cena
todos os anos, em alguns casos MAIS de um espetáculo [ como em 2010 ou agora
recentemente, com “Desterrados” e “Ofélia Morta” apresentados ambos em 2015 ].
Isso é algo pouco dito mas que deve ser valorizado. Poucas companhias se
empenham em montar novos trabalhos TODOS os anos ininterruptamente em uma
década.
JEFFERSON LEARDINI & LUÍS BINOTTI
WAL BUARQUE
LMM – Você menciona
o teatro convencional, que eu 'convencionei' chamar de 'teatrão' [ & isto
para mim nem sempre ou quase nunca seria um elogio ] em contraponto ao teatro
real ou de resistência, como vejo e sinto, que é o que pratica. Vejo
influências do teatro do 'gutter', sem concessões, Plínio Marcos, Jean Genet,
no seu próprio trabalho. É isso? Não faria o chamado 'teatrão', por razões pessoais,
ideológicas?
DC – É isso sim.
Quanto a Genet & os outros, agradeço e concordo. Sou Genet sem a
criminalidade barra pesada. Realmente, se fôr responder com total sinceridade,
não me interessa esse que você chama de 'teatrão'. Teatrão de verdade,
Shakespeare, clássicos? Ok; mas espera aí, montar um Shakespeare, querido, tem
que ter cacife. Por que Europeus, Brooks, Branagh, fazem aquelas montagens
maravilhosas? Porque eles tem SÉCULOS de tradição & história neste campo.
Montar um “Macbeth” como os britânicos não é uma tarefa para qualquer um. Nós
ainda estamos engatinhando neste quesito. Se for passar dez, vinte anos
montando “Trair & coçar...” então prefiro não fazer. Isto não é teatro pra
mim. Tenho a benesse de não precisar fazer isso. Teatro é minha vida, minha
paixão, não meu ganha pão, feliz ou infelizmente. Então não vou prostituir
minha vida, minhas crenças, nem por fama nem muito menos por dinheiro. Há uma
linha em termos de ousadia & avantgardismo que devemos sempre atravessar.
Em termos de ÉTICA & estética, nunca. Ou melhor me expressando, este não é
o teatro que me interessa, entende?
LMM – Como
formador de público, você acha válido pelo menos, este tipo de espetáculo
convencional, começo / meio & fim, praticado por certa parcela dos artistas
envolvidos na área?
DC – Qualquer
forma de teatro é válida. Só não significa que seja válida para mim. Teatro só
é teatro porque temos o público. Simples assim . Tenho um espetáculo montado em
2010, “Sobre armadilhas e mentiras”, que tem uma estrutura linear... Quando da
montagem do “Coletivo Macaquinhos” [ em tempo: polêmica intervenção em que os
atores nus se tocavam explorando os ânus uns dos outros, que muitos tacharam de
indecente, imoral & toda esta merda que a banda reacionária, hipócrita e
conservadora brasileira alimentada de rede lodo há décadas adora vomitar a todo
momento ] muitos vieram até mim e perguntaram se aquilo era válido, se aquilo
era teatro, no que respondia: “válido e muito válido”. Enquanto esta
mentalidade tacanha imperar – até mesmo no público de teatro, não se enganem,
mesmo o menininho cool da unicamp carrega montes de limitações – precisamos de
MUITOS macaquinhos, tanto quanto de Beckett ou do Bardo Inglês, para abrir as
cabecinhas da plateia.
Mas voltando à questão do
teatro mais comportadinho e mainstream, se é honesto para eles [ aqueles que
montam tais trabalhos ], acho válido. Apenas não faria. Não me diz nada.
LMM - Você não só
tem uma precocidade impressionante,mas se tornou muito bom em TUDO o que envolve teatro. Isto já vem desde o início,
este interesse por todos os aspectos da montagem, luz, cenografia, dramaturgia,
direção?
Eu acho que sim...
Acho essencial que o ator não seja apenas um receptáculo de ideias dos
diretores. Teatro é o domínio do ator, então tem de ter bagagem. Detesto ator
que não sabe conversar. Outro dia ouvi de um rapaz que estava na plateia aqui, em uma das apresentações de "Ofélia Morta" [
Experimento oficina da Cia Corpo Santo que fechou o ano de 2015 ] : “Ah, então,
tem Artaud...” Tem esta turminha pretensiosa, que faz universidade e sai
dizendo o que vem à cabeça, achando que sabe tudo porque estudou cênicas aqui e
ali. Sinto muito, crianças, isto não me impressiona. Ter diploma não te qualifica automaticamente como grande auteur, muito menos ator. A
Elaine [Ávila Cruz, da Cia Corpo Santo ], por exemplo, é uma pusta atriz porque
vai MUITO ao Teatro. Voltamos à questão da bagagem. Tem que estudar sim, mas
estudar tudo. Não é só a grade curricular ou seja lá o que esse pessoal acha
importante, enfim. Busco minhas inspirações em tudo, cinema, teatro, artes
plásticas. Teatro é tentar, tentar, errar, até acertar. Não encaro como
obrigatórias as fórmulas pré estabelecidas, e sempre fui um auto gestor. Daí o
interesse por todos os meandros que envolvem o ofício teatral, entende? Não
estou nem aí para imposições, estilos, regras, tabus e dogmas. Faço o MEU
teatro. Com todo o respeito que devo a Stanislavsky – que é óbvio, fundamental
- Brecht, Zé Celso, não me preocupo com isso quando crio o que é meu.
ELAINE ÁVILA CRUZ
Vou contar uma
história interessante e saborosa sobre este tipo de bitolação: quando da
montagem de um espetáculo extremamente intrincado que a Cia Corpo Santo
encenou, eu estava enfronhado até o pescoço no espetacular manifesto /
ideologia / livro do grande Hans – Thies Lehmann, Postdramatisches Theater [
Teatro Pós – Dramático, aqui no Brasil, criação de Lehmann a partir do ano de
1999 ]. Dissequei suas ideias de cima a baixo durante muito tempo. Só falávamos
disso, estudamos exaustivamente tudo o que o pós dramático representava,
desconstruímos, remontamos tudo à nossa maneira... Como dizia a chamada para
"Navalha na Carne" [ Plínio Marcos ] que o Oficina criou [ em cartaz em São Paulo ], adorei o termo usado por eles para definir a mesma, 'desmontagem'. Eu acho que é isso , tem que desmontar
tudo e refazer à nossa maneira. Mas logo
após o espetáculo [des]montado, todo
mundo à minha volta só falando de 'pós dramático', eu mesmo bradei: “Tá bom,
pessoalzinho, chega, vamos focar na direção totalmente contrária agora”! [
Risos ] Este sou eu, nunca parado no mesmo lugar...
Fazer tudo não era
somente uma necessidade mas uma obrigação pra mim. Sempre paguei um pau pra
Beth Goulart, por exemplo. Aquela é uma artista que está perfeitamente cônscia
de todas suas funções / capacidades. Vem de família toda teatral, monta seus
espetáculos , monólogos, sabe fazer parcerias e faz teatro de verdade.
Quanto à minha
dramaturgia... Tenho 30 textos prontos, e mais 30 no mínimo em andamento. A
primeira vez em que senti que podia fazer tudo foi com “Insônia”, monólogo meu
no qual atuei, e que também escrevi, encenei & dirigi, que criei por volta
do ano de 2009. De lá pra cá não parei mais mesmo.
LMM – Você faz um
teatro não linear e enigmático. Mas já me disseram [ e você mesmo parece ter
confirmado isto numa conversa informal entre nós tempos atrás ] que Douglas
Chaves, o diretor, tem uma agenda pessoal, uma espécie de estratégia, que se
resumida seria: “montar, encenar e depois deixar morrer”.Me esclareça sobre
isso – é assim mesmo que realiza seus trabalhos ?
LUÍS BINOTTI
DC – Hmm... digamos
que temos um método desenvolvido dentro do grupo que foi sendo aperfeiçoado por
nós mesmos. É claro que tem muito de outras experiências mas é nosso. Nos
fechamos no processo, mimamos os atores mas arrancamos deles ao máximo também.
Quanto ao encena e deixa morrer após curtas temporadas, tem sim que morrer
mesmo. Por quê? Porque não me vejo encenando a mesma coisa, mesmos atores ou
outras trupes durante anos. Houve uma época em que lutava para manter
espetáculos em evidência; quando da encenação de “Lugar Comum”, por exemplo,
foi um processo de montagem longo e aí, de repente após somente TRÊS
apresentações, tivemos de interromper tudo por problemas envolvendo algumas
pessoas do elenco. Foi frustrante. Então em espetáculos posteriores batalhava
para que as temporadas fôssem maiores, mais longas, sem apoio nem recursos, e
nem sempre obtendo resultados. “Lugar Incomum” rendeu 23 gloriosas apresentações após 8
meses de preparação, mas foi uma exceção. Este controle sobre a própria
obra não depende só de mim mas de uma série de outros aspectos – momento,
locais para apresentação, condições favoráveis [ ou não ].
LMM – Depois de
tantos anos de experiência e realizações, há ainda alguma coisa que inspire
Douglas Chaves, não somente no Teatro mas nas Artes em geral?
DC – CLARO que há!
Devemos ser sempre conscientes e gratos ao Teatro Oficina por servir de exemplo
para todos nós do Teatro, por estar na vanguarda há tantas décadas. Cinema,
tivemos “LOVE” de Gaspar Noé [ cineasta Franco Argentino que compartilha
ideologias & estética com Doug ] este ano, “Carol” de Todd Haynes, que
achei muito significativo; em Teatro, recentemente eu & o Luís [ Binotti,
ator da Companhia & parceiro de Douglas há muito tempo, com quem encenou
entre tantos outros “As Criadas” de Genet, pelo qual foi indicado a um prêmio
no setor ] vimos “Krum”, numa montagem de Márcio Abreu primorosa, um exemplo de
como fazer grande Teatro, grande timing, performances impecáveis, uso de luz
branca extraordinário... Sempre me inspiro e recrio / reinvento.
LUÍS & DOUGLAS
LMM – És um provocador,
termo que aliás tomou para si e usa para definir não só a sua função dentro de
projetos [ como o recente & extraordinário “Fando & Lis” ] como a de
seus comparsas de cia [ Doug, Elaine, Luís, Jeff & Wal foram os
'provocadores' para quatro atores – Adolfo, Bruno, Hector & Lucas - na
oficina criada que resultou em “Ofélia Morta” ]. Então para finalizar só poderia mesmo te pedir um 'teaser', um
pouquinho do que está por vir com a companhia. Podemos saber do(s) novo(s)
projeto(s) da Corpo Santo em 2016?
DC – Com o maior
prazer. Iniciamos as comemorações de dez anos de companhia já agora nos dias 23
& 24 de Janeiro, com novas apresentações de “Ofélia Morta”; podemos ter
também um curto retorno de outros espetáculos da cia como “Desterrados”... Mas
o foco mesmo está em um novo trabalho, que deve ser nosso primeiro texto
colaborativo e cujo processo em grupo se inicia a qualquer momento logo neste
começo de ano. Cheguei a escrever três cenas para o mesmo, mas por um golpe do
destino e a não feitura de um backup do meu novo celular se foram [ risos ].
Agora começaremos do zero, e talvez seja melhor assim. Estarei na direção, com
Adolfo [ Barreto, ator de “Fando & Lis” e “Ofélia Morta” ] sendo o
provocador desta vez. E mais, retorno a este espetáculo em cena também, o que
me deu tesão renovado, estou muito empolgado em voltar a atuar, o que não fazia
desde “Pequenos Desastres”,não é... Teremos um elenco maior que o das últimas
montagens que fizemos, com uma querida atriz, Ana Amorim, voltando após tantos
anos longe dos palcos conosco, estou muito feliz com isso, mais o elenco atual
da Corpo Santo. A história gira em torno da projeção de um futuro de dez anos.
Amigos se reencontram e descobrem o que cada um fez [ ou não fez ] neste
período de uma década. O título muito provavelmente será “DÈS QUE” ou “BIENTÔT”
[ algo como 'tão breve', ou 'tão logo', em Francês ]. Quem viver, verá.
ANA AMORIM
ADOLFO BARRETO












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