É surpreendente
como descobrimos fatos admiráveis envolvendo as vidas de cada um de nós que
fazemos parte deste coletivo que é a raça humana.
No caso de ANDRÉ BAIDA,
compositor & vocalista da banda de Gothic Metal FENRIR'S SCAR e sua doce e
talentosa parceira DEZERRÊ REZENDE, também vocalista & letrista do grupo,
isto não poderia ser mais verdadeiro.
A história de ambos
carrega poesia suficiente para render por si só uma ode ou poema ou letra de
canção [o que parece mais apropriado no caso desta dupla]...
DEZE começou na
carreira na mais tenra idade, tendo já com 16 anos iniciado seus estudos com o
mestre, professor & preparador vocal FABIANO NEGRI, fronteou muito jovem
ainda uma banda Evanescence cover campeã de concursos e finalmente se
estabeleceu como a letrista e voz feminina da Fenrir's Scar.
André apesar de
relativamente jovem, tem um longo histórico de batalhas pessoais &
profissionais em sua vida. A perda do pai, o fim prematuro de uma banda
promissora [pouca gente sabe, mas Baida
era não só baixista como principal compositor & mastermind da COUNTERPARTS,
banda de Power Metal do cenário de Campinas. Muito como CHRIS SQUIRE para o
YES, GEDDY LEE para o Rush, PETER STEELE para o TYPE O Negative ou Joey De Maio
para o Manowar, ele capitaneou a banda assim como compôs praticamente o álbum
inteiro da mesma], diversas cirurgias para recuperar sua mobilidade [chegou a
ser desacreditado, ouviu que nunca mais poderia tocar baixo e talvez sequer
andar direito novamente], entre outros dramas particulares. Baida permanece de
pé e com o apoio sempre determinante de Deze, profissional e pessoalmente,
retornou não só como um sobrevivente mas como um vencedor as well, recuperando
material antigo [que teria feito parte do segundo álbum de sua banda anterior]
e renascendo como uma Fênix das cinzas, para iniciar um novo ciclo com seu mais
recente grupo Fenrir's Scar assim como também no prestigiado posto de baixista
oficial da banda de Fabiano Negri.
Fui surpreendido
positivamente pelo fato de Baida e eu termos muitos elementos biográficos em
comum, mas muito além, possuir opiniões sobre música & o cenário do Rock /
Metal muito semelhantes às minhas também.
Deze e Baida
conversaram longamente comigo gerando uma entrevista saborosa e profunda,
falando de assuntos tão diversos quanto primordiais.
A seguir, a
transcrição desta conversa:
Leonardo Mattar
Monteiro – Por que Fenrir's Scar [a cicatriz de Fenrir]? Qual a razão da
escolha deste nome?
ANDRÉ BAIDA – Tanto
eu quanto a Deze temos uma ligação com Mitologia Nórdica, gostamos de coisas
similares... Mas não vou mentir, a origem do nome remonta aos tempos em que era
principal 'cabeça' da Counterparts. Naquela época escrevia muito para a banda e
criei uma canção, “Fenrir's Last Howl”, que considero até hoje a melhor coisa
que compus, para a qual meu ex-'Counterpart' bro Emerson Penerari criou a letra. Deixei a banda mas o nome Fenrir’s Scar ecoava em mim.
Finalmente, quando a
Deze estava reunindo músicos como seu irmão Gabriel, para uma nova banda, a
qual integrei inicialmente como baixista e enfim me estabeleci como vocalista,
procurávamos um nome e Fenrir's Scar parecia ser não só apropriado mas ter
encontrado sua 'morada' definitiva.
Da esquerda para direita : onde está Wall .. ops ! Fabiano Negri =D , Gabe Rezende & Vinicius Pradão
LMM – Vocês tiveram um início fantástico,
começando pelo fato de que o tutor de vocês é Fabiano Negri, grande músico e
produtor. Falem um pouco sobre esta relação e como é trabalhar com um talento
como ele.
DEZE REZENDE – Então
, na verdade eu servi como 'ponte' de apresentação do Fabiano para o Deco. Pelo
fato de cursar vocalização com Negri, desde os tempos de Cromat [escola de
música da cidade de Campinas] continuando meus estudos na Cultura Pop [também
escola de música da mesma cidade, fundada por Negri em 2005], eu estava sempre
em contato com ele, mas nossa relação era de professor e aluna. A partir do
momento em que ele começou a promover as festas de finalização de ano da
escola, abrindo espaço para os alunos mostrarem seus talentos é que ele e o
André estreitaram relações.
AB – É curioso
porque nos conhecíamos do cenário musical da cidade, mas era tipo: 'oi',
'tchau'. Eu e Fabiano somos praticamente da mesma geração de Campinas,
inclusive em termos artísticos. Ele tocava com o grupo Rei Lagarto e eu estava
envolvido com o Counterparts na época. Foi só quando a Deze entra nesta equação
é que pude me tornar como sou hoje amigo e colaborador de Fabiano,
principalmente após o convite para integrar sua banda atual como baixista.
LMM – Você Deze,
cuida das letras da banda, enquanto André compõe praticamente tudo sozinho.
Como é este processo pra vocês? De onde tiram ou buscam inspiração?
DR – Experiências
pessoais, muita coisa que leio mitologia, mas de muito mais: amo seriados
modernos, por exemplo, como American Horror Story, então automaticamente esta
influência vai aparecer nas minhas letras vez por outra [um exemplo claro disto
estará na faixa “CALIBAN”, 1 dos próximos singles a serem lançados pelo grupo
Fenrir’s Scar; Deze escreveu a letra inspirada / baseada no diálogo do
personagem do título da canção com Frankenstein, na série “Penny Dreadful”]...
AB – Eu componho sem
um método claro de criação. As ideias vêm, eu me sento ao teclado, [a exemplo
de como outro baixista & frontman, o saudoso Peter Steele, também fazia],
trabalho as melodias, depois vou adicionando camadas e pensando no resto da
música. Se me sentar e disser a mim mesmo: “vou compor algo”, nada acontece.
Tem de ser assim, um processo espontâneo que vem a mim sem planejamento prévio.
LMM - Como já disse
Mestre Amyr Cantúsio Jr, vivemos num mundo onde rótulos muitas vezes parecem
mais importantes que a arte / música em si. Vocês mesmos já se definiram como
Gothic Metal. Mas como veem esta coisa? Rótulos são necessários? Ajudam ou
atrapalham? Tem medo de um dia serem pigeonholed [caírem na armadilha de serem rotulados & virarem reféns disto]?
DR – Bom, eu não
gosto de rótulos, claro que se puder fujo deles todos, mas tenho que admitir
que eles ajudam você a se situar no mercado & agregar fãs. É uma forma de
colocarem você num nicho reconhecível talvez.
AB – Também não gosto
de rótulos, mas também nem me incomodo com isso. Faço música para os outros
sim, mas não por causa dos outros. Se um dia acontecer de cairmos numa fórmula, significa que ao
menos está dando certo. MAS faremos tudo para evitar isso. Não queremos virar
uma destas bandas que fazem a mesma coisa álbum após álbum. Nossas canções são
nossos filhos. E para mim é tudo ROCK. Simples assim.
LMM - O que é Gothic
Metal então para vocês?
AB – É complicado,
porque isto acaba virando uma guerra. O público é muito preconceituoso e
fechado. Cada um tem conceito do que é / seria ‘gótico’ ou ‘metal’ ou a
combinação dos dois. Pode-se classificar tantas bandas nesta categoria...
DR – Muitos não
gostam de Sisters of Mercy, por exemplo; ou acham o H.I.M. uma banda fajuta. Só
pra exemplificar quão longe isto vai.
LMM - Então se
tivessem de citar bandas numa lista quais seriam representantes do ‘rótulo’
Gothic Metal?
DR – Paradise Lost,
Type o Negative, Sentenced, talvez o Lacuna Coil…
AB – Concordo com a
Deze. Tem o Moonspell de Fernando Ribeiro, uma banda que admiramos muito, mas o
Moonspell é tão vasto, vão de Black a Gothic. Acho às vezes o público muito
limitado. Precisam abrir a mente.
FERNANDO RIBEIRO [ MOONSPELL ]
FERNANDO RIBEIRO [ MOONSPELL ]
LMM - Vou então bancar
o advogado do diabo – e a definição do que é o rótulo Symphonic Metal, ou mesmo
esta tendência ‘Beauty & the Beast’ [dois vocalistas, uma voz feminina
& uma masculina] que parece dominar o gênero, já tendo até mesmo rendido
críticas por parte do Mestre Fernando Ribeiro. Como é que vocês veem e se veem
nisso tudo?
DR – Claro que temos
semelhanças com esta linha, mas gosto de pensar que saímos um pouco disto com a
Fenrir’s Scar. Um exemplo de uma dupla que foge da obviedade está no Lacuna
Coil, banda italiana de que gostamos muito. Cristina Scabbia & Andrea Ferro
fazem uma linha que não se limita ao que definem como ‘Beauty & the Beast’,
aquela coisa do lírico versus gutural.
Cristina Scabbia , Andrea Ferro [Lacuna Coil]
AB – Pessoalmente não
gosto desta coisa do lírico. E não acho que somos suficientemente ‘sinfônicos’
para caber nesta definição não. Concordo com a Deze, gosto demais do Lacuna mas
a partir do “Karma Code” em diante, antes achava forçado, o Andrea se matando
para alcançar os tons. O grupo é um representante digno desta linhagem.
LMM - Mais algumas
bandas que queiram citar como respeitáveis nesta tendência?
DR – Acho que o
Nightwish, gostamos de todas as fases com todas as vocalistas, The Gathering,
Within Temptation... tem muita coisa boa mas muita coisa ruim também. Gosto de
Epica, por exemplo, mas admito que aquela coisa da vozinha feminina doce &
suave contra o masculino agressivo é muito clichê...
AB – Além do Lacuna, claro, Tristania, Visions
of Atlantis...
LMM - Pra vocês onde
nasce esta coisa do beauty & the beast, conjugação de vocais femininos
& masculinos num conceito Metal?
AB - Talvez você se
espante com minha resposta, mas pra mim tudo começa lá atrás com o Meat Loaf.
Sabe “Anything but love”? Então, o conceito ‘beauty & the beast’ pra mim
nasce ali. O que vem depois só define mais, refina mais, adiciona peso &
atitude à fórmula, entende?... Aí, se fôrmos falar apenas de Brasil, o público
começa a ‘acordar’ para isso uma década & meia atrás mais ou menos. Quando
estoura a faixa “My Immortal” do Evanescence na trilha do filme do “Daredevil”
[Demolidor], a molecada de doze anos ouviu aquela coisa de voz feminina em
contraste com uma masculina, e quis ouvir mais, conhecer mais. Aí vem o “Ocean
Born” do Nightwish...
DR – Mas o “Ocean
Born” é anterior a isso tudo, Deco.
AB - Exato, mas aqui
no Brasil é o período em que o Nightwish começa a ‘bombar’, ficam conhecidos. O
resto é história.
LMM – Já mencionamos certa
limitação do público nesta cidade, mas talvez o problema esteja no nosso País
como um todo. Como encaram este esvaziamento de interesse por parte do público?
Vocês que vivem a cena há certo tempo como comparam o atual momento com o de
antes?
DR – O problema está no
público sim, mas nos organizadores dos locais & espaços de apresentação em
geral também. Veja bem, quando era frontwoman de um Evanescence cover, vencemos
um festival como a banda que mais público atraiu. No entanto, isso não se
refletiu em muito mais apresentações para a gente. Os espaços são fechados,
muita ‘panelinha’. Este ano, por exemplo, teremos o Epic Metal Fest no Brasil,
mas para uma banda iniciante como a nossa entrar num esquema destes é muito
difícil...
AB – Eu diria que era
ruim e está pior. Acho que é um problema de educação. Não de ‘bom dia’, ‘boa
tarde’, ‘boa noite’. Mas de bagagem cultural, de prestigiar a Arte. Falta a
cultura de entender que a arte só se mantém viva assim. Infelizmente havia
espaço garantido para o autoral quando o Hammer Rock [Bar afamado de Campinas
voltado ao cenário Metal / Rock] existia. Depois, os espaços foram se fechando
cada vez mais. Sem querer soar pretensioso, mas quando eu & o Vitão realizávamos
o FMC [Festival de Bandas de Metal de Campinas], era o único Festival
verdadeiramente democrático, onde o público & não a organização decidia
quais as bandas que entravam ou não.
Tirando os poucos
abnegados que continuam defendendo e prestigiando as bandas, como você,
Leonardo, o público simplesmente não rotaciona,
se mantém sempre com as mesmas pessoas da cena. Hoje o acomodado prefere
ver um ac/dc couve a ajudar as bandas autorais, muitas vezes com músicos que
atuam nas duas frentes e tocam nas de covers também. Fdp prefere gastar os
tubos enchendo a cara de cerveja a pagar dez reais pra entrar e ver um Fenrir’s
Scar. Muitas vezes nem seus amigos se dão ao trabalho de um ‘click’ pra
‘curtir’ ou RT algo que você cria / posta. É desolador.
Certa vez vi uma
ilustração que mostrava duas filas – numa subiam pessoas amparadas umas nas
outras, se dando as mãos para todas chegarem ao topo; na outra, uns metendo os
pés nos outros, tentando empurrar todo mundo pra baixo, principalmente os que
já haviam chegado lá em cima. A 1ª coluna, da esquerda, eram os artistas da
música sertaneja. A dos traíras da direita, a do cenário ROCK. É triste, mas é
mais ou menos isso mesmo que acontece, não só em Campinas, mas principalmente
aqui. Tem muita vaidade e falta de generosidade envolvida.
LMM – Agora falemos
sobre a Fenrir’s. Começaram com um futuro promissor, já produzidos em um
primeiro single [“Downfall”] por um fera como Fabiano Negri, com várias outras
canções como “Dark Eyes” e “Caliban” on their way... Como tem sido a
repercussão do trabalho de vocês junto ao público? Quais são as novas da banda
para o ano de 2016?
DR – Tem muitas boas
notícias pra gente, muita coisa legal acontecendo principalmente a partir do
segundo semestre deste ano, apesar de algumas pessoas nem sequer ouvirem
realmente o que você está fazendo, na nossa própria cidade e país, mas isto é
típico daqui.
AB – Verdade; a
repercussão junto a novos fãs é o mais surpreendente, sabe. Neguinho no Brasil
às vezes não dá a mínima. Em compensação, você recebe feedback positivo vindo
das redes sociais como o Youtube e de lugares tão inesperados quanto
surpreendentes, como Estônia, Suécia, Alemanha e até mesmo dos EUA. Temos sido
convidados para participar de alguns projetos muito bons. Em Março, por
exemplo, no dia 6, a convite de Brunno Mariante [Nitrojam, Trashers,etc]
tocaremos no Sebastian Bar de Campinas com outras bandas do cenário, como o
Vindicta e Holder of Souls. Devemos nos apresentar no American Garage também no
próximo mês. Ah, nossa canção “Downfall” estará no Volume VII da coletânea da
ROADIE METAL, junto a bandas extraordinárias da cena como o foderoso
VoodooPriest, um privilégio. Quanto ao trabalho gravado, nossa intenção é a
cada dois meses em média lançar um single novo sempre disponível online, com o
uso das ferramentas digitais, que serão reunidos depois como uma compilação de
áudio para angariar público, uma maneira de tornar nosso trabalho conhecido.
LMM – E aí, como um
cara como você, veterano da cena, que já teve desilusões, teve de cancelar Tour
na Europa pelas escolhas e bundamolice de integrantes do Counterparts, acha
motivação para voltar com força total e continuar criando?
AB – Saí do
Counterparts por razões pessoais, depois de 14 anos de dedicação, me desiludi
com certos aspectos e atitudes de outrem. Mas as músicas, o conceito e o nome
Fenrir's Scar continuaram comigo.
Sem querer causar
espanto, mas na verdade minha força vem de certo egoísmo. Explico: apoio-me na
Deze. O fato dela ter criado a banda e ter me chamado para voltar e tocar com o
Fenrir’s foram fundamentais para mim, poder colocar tantas criações de novo no
spotlight, apresentar nosso trabalho para o mundo. Sem criar, eu morreria. Como
mencionei antes, nossas canções são nossos ‘filhos’. Então o que me motiva
sempre adiante é a necessidade ‘egoísta’ de externar meus sentimentos e minha
ARTE.
LMM – Para finalizar,
alguma banda ou bandas com as quais gostariam de tocar numa mesma gig aqui ou
fora do Brasil?
Dezerrê Resende –
Lacuna Coil, Semblant, Vandroya.
André Baida – Lacuna,
Moonspell, Soulriver, Kamala, Lacrimas Profundere.
FENRIR’S SCAR –
Integrantes da banda [da esquerda para a direita] :
- GABRIEL REZENDE – Baixo
- VINICIUS PRADO –
Guitarra
- GRAZI MARIA – Teclados
- DEZERRÊ REZENDE – Vocais , Letras
- ANDRÉ BAIDA – Composição , Vocais
- PAULO VITOR
- ILDÉCIO SANTOS – Bateria











Adoro estes meninos ! Longa vida ao FENRIR'S SCAR !
ResponderExcluirObrigada Leo! Foi uma honra :)
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