quarta-feira, 30 de dezembro de 2015
CRIAR [ poema escrito por ELAINE ÁVILA CRUZ ]
Criar
Saber
lidar com as angústias.
Falar
com o corpo o que a fala não consegue expressar, dizer.
Criar
…
Consagrar
a loucura!
Possibilidade
de expor-se, abrir-se, sem ser censurado, sem um certo e errado.
'Cavucar'
as memórias fósseis, acordar os sentidos,
Dança uma maneira de
sentir-se no mundo,
com as pessoas -
Uma
formiga de braços abertos para o sol.
Arriscar-se,
procurar o desacomodar-se do ser, do corpo, deste corpo.
Despertar
as raízes do mesmo, dessa memória adormecida.
Beijar
a terra com os pés, goiabeira, ovo choco, pitangueira, carriola,
mangueira, cangar
um
vagalume, é possível?
Sons
ruminantes ecoam pelos corpos.
Dança
contato com a pulsação da vida.
Consciência
do corpo, volume que ocupa, reocupa os espaços.
Cria,
recria, procria …
Sinto
que muitas vezes meu corpo não expressa tudo o que sinto.
São
muitos sentimentos.
Encontro
com o macro e o micro …
Divino!
ELAINE
ÁVILA CRUZ , Abril 2007
terça-feira, 29 de dezembro de 2015
Entrevista com o Artista & multiinstrumentista FABIANO NEGRI
Apesar de um dia muito triste para um mendigo do METAL como eu [fui destroçado pela notícia da morte daquele que talvez seja o maior Ícone da História do gênero, LEMMY KILMISTER, nesta madrugada] tive a alegria de finalmente realizar minha extensa entrevista com FABIANO NEGRI , aquele que considero um dos maiores artistas deste País, pra mim um Mestre Jedi com a clara missão de trazer beleza & enlightment a este mundo. Este é meu presente de fim de ano em 2015 às pessoas de bom gosto ...
Leonardo Mattar Monteiro - Escreva-me sobre a ideia & o projeto de abrir uma escola de Música que desembocou na inauguração da Escola Cultura Pop; como & quando isto ocorreu ?
Fabiano Negri - Sou professor de música desde 1997 e lecionei durante 8 anos na Escola Cromat. Em 2005 decidi que era hora de abrir um espaço só meu, pois a família estava crescendo e eu também precisava crescer profissionalmente. Foi aí que surgiu a Escola Cultura Pop. Já estamos há 10 anos no mercado, trazendo uma maneira diferente de ensinar música. Sempre gosto de pensar que minha missão é formar "carreiras" e tenho sido bem sucedido no meu intuito.
http://www.escolaculturapop.com/
LMM - A Arte é tudo para você , a ponto de dedicar mais de vinte anos nonstop a este ideal. Já falou sobre sua inquietação a respeito de seu próprio trabalho & o quanto isto é vital para um artista. Acha que o público é capaz de entender estas nuances ou estamos pregando para uma multidão de néscios que não são capazes de compreender porra nenhuma ?
FN - Vamos falar a verdade. Fazer música no Brasil não é fácil. Ainda mais o tipo de música que eu faço. Sou um artista que não pensa no sucesso e sim na qualidade do meu trabalho. O público praticamente não existe. Tenho alguns poucos e fiéis seguidores que me mantém focado na minha carreira. Mas no geral é uma carreira que serve para me satisfazer em primeiro lugar. Faço o que me dá na telha, faço um tipo de música que não precisa ter rótulos. Apenas música que eu considero boa para os meus padrões. Não faço canções para quem não tem a mente aberta. E isso é difícil, porque as pessoas gostam de rótulos. Principalmente o público do metal. Eu fui criado no metal, cresci fazendo esse tipo de som, mas nunca fui radical. Sempre curti tudo. Com o passar dos anos eu fui ficando cada vez mais arredio ao metal e ao radicalismo burro que ele representa. Caramba, música é música. As pessoas precisam acordar e ouvir outras coisas sem preconceito.
LMM - Um dos primeiros artistas junto com Marcelo Diniz (também aqui de Campinas) a saber como & usar a internet a seu favor, como vê este cenário hoje ? Como ficam os resultados na confrontação 'obra de arte física' versus 'produto digital' ?
FN - É legal. Mas ultimamente tudo tem ficado meio congestionado. Tem muita gente usando a rede para promover seus trabalhos. O problema é que temos muito coisa ruim e pouco coisa realmente boa. A internet coloca bons artistas e artistas pouco preparados no mesmo patamar. Isso gera uma confusão nas pessoas, que acabam achando que tudo é um lixo. Mas aos trancos e barrancos vamos caminhando nesse mar de lama. Haha !
LMM - Você é uma bateria de criação & energia aparentemente inesgotável. Seu mais novo projeto é algo ousado de nome "Z.3.R.O". Pode me falar mais sobre ele, como surgiu a inspiração para o mesmo , etc ?
FN - É um projeto com uma cara mais experimental. É muito mais pesado e sombrio do que meu último disco. Eu tenho essa coisa "dark" dentro de mim. Não esperem por canções bonitinhas. O lance é áspero, é azedo. O primeiro single saí dia 9 de janeiro e trará duas canções. Z.3.R.O. e My Dark Passenger. Durante o ano soltarei mais diversos singles do projeto. E para o segundo semestre lançarei a Ópera Rock "Cursed Artist" com a minha banda!
LMM - Recentemente li alguém que tweetou: "Fabiano Negri é o mais legítimo herdeiro de David Bowie", no que concordo em gênero, número & grau. Mas e você, o que pensa disso, concorda...?
FN - O Bowie é exatamente o que eu espero em um artista de verdade. Um cara que NUNCA teve medo de se reinventar. Tudo o que ele fez tem qualidade. Eu amo seus trabalhos. Se um dia eu puder ser 10% do que ele é, estarei feliz. É um dos meus artistas favoritos e talvez minha maior influência.
LMM - Uma pergunta um tanto polêmica ; foi criador de algumas das bandas mais avant garde da cidade de Campinas, Mindfreak, Sun Machine, Machina, todas talvez muito melhores & mais espetaculares que o Rei Lagarto ... mas que tiveram curtíssima duração. Você atribui isto à cegueira do público da cidade de Campinas, ou na verdade voltamos à questão de que Arte avançada é para pouquíssimos? Quero sua opinião a respeito.
FN - Em primeiro lugar não concordo que sejam bandas mais espetaculares que o Rei Lagarto...hehe
Mas eu acho que o problema não teve a ver com o público e sim com as próprias bandas. Acabaram por problemas internos, por falta de motivação para continuar. Às vezes os projetos tem vida curta mesmo. Chegam, dão conta do recado, e terminam. Os que mais duram são aqueles que realmente tinham mais lenha para queimar.
LMM - Fabiano Negri é um cara muito generoso com seus pupilos & discípulos; como um bom Jedi, prepara & pavimenta o caminho para os mesmos. Quão importante acha este trabalho de produção / incentivo & acha que o problema com a cena musical de Campinas talvez seja esse? Falta de generosidade & entrega?
FN - Não sei. Eu sou assim. Eu sempre quero que meus alunos tornem-se melhores do que eu sou. Eu quero mais talentos espalhados por aí. Quero ajudar, sempre. Quem tem contato verdadeiro comigo sabe bem como eu sou. Embora muita gente queira me pintar como um cuzão arrogante e babaca, eu sempre coloco a cabeça no travesseiro bem tranquilo. Sei que não sou nada disso. Sou um cara que incentiva a arte de maneira sincera. Encaro isso como uma missão.
LMM - Como eu, você é totalmente dedicado ao cenário de Campinas mas um cidadão do mundo, sem amarras com o provincianismo. Acha que se sua carreira tivesse se desenvolvido numa metrópole como em São Paulo, por exemplo, teria sido diferente ou na verdade a 'doença da indiferença' que acomete esta cidade é um problema nacional, brasileiro mesmo?
FN - É um problema nacional, sim. Na verdade um grande e absurdo problema cultural. E também um problema de ego coletivo. As pessoas não tem educação no Brasil. Não tem cultura e se julgam "entendidas". Basta ver comentários em fóruns por aí. A maioria dos comentários é sempre negativo. As pessoas não conseguem apreciar alguma coisa sem tentar buscar primeiro o defeito. Estamos dominados pelo 'achismo' e pela prepotência. Mas o lance é se alienar em relação a isso e seguir em frente. Compartilhar arte com quem merece e deixar o pasto para quem quer pastar.
LMM - 2016 verá o lançamento de seu trabalho mais ambicioso até agora, o conceitual "Cursed Artist", que como o "The Wall" de Roger Waters é autobiográfico, ou seja, baseado em suas próprias experiências pessoais. Quer me contar um pouco mais sobre esta sua nova obra prima ?
FN - "Cursed Artist" é uma ópera rock sobre a vida do artista maldito no Brasil. O artista que não se vende, que não pensa no sucesso, que pensa na arte como ARTE. E a missão é dura. O projeto é o resultado da parceria entre o estúdio LaRocha, minha banda e você [este que vos escreve neste blog =] como ilustrador. A coisa já está andando e pretendo lançar o álbum no meio do ano. Espero que as pessoas ouçam e prestem atenção na mensagem.
LMM - Conselhos pra quem está entrando nesta carreira agora. Como seguir sendo artista / músico / criador ? É possível manter a integridade e ficar longe da torrente de mediocridade vigente nos dias de hoje?
FN - Seja verdadeiro. Seja honesto com a sua ARTE .
E mais importante do que tudo:
Não seja imbecil em tentar qualificar sua arte desqualificando a arte do seu companheiro.
Fazendo isso você não é um artista.
Você é um bosta.
Feliz 2016.
http://www.fabianonegri.com/
fabianonegri@yahoo.com.br
segunda-feira, 28 de dezembro de 2015
Zisi Emporium for B Movies: The Beast, Bestiality in France
Zisi Emporium for B Movies: The Beast, Bestiality in France: "Beauty and the Beast" has enjoyed a myriad of interpretations over the years. Most of us are keenly familiar with Disney's a...
sábado, 26 de dezembro de 2015
Resenha Espetáculo DESTERRADOS - Companhia CORPO SANTO
DOUGLAS CHAVES
não é um diretor de lugares comuns. ALIÁS, um de seus espetáculos anteriores já
denotava este fato a partir do título - LUGAR INCOMUM. Após um espetáculo
impactante depois do outro (o já citado anteriormente, “PEQUENOS DESASTRES”) o dramaturgo
/ diretor nos acerta com outro soco no estômago – DESTERRADOS, de sua Companhia
Corpo Santo, prestes a completar dez anos de carreira nos palcos da cidade de
Campinas.
[ Mestre DOUGLAS CHAVES & o técnico DIEGO CAVALARI CONSOLINI ]
E com certeza, não é um espetáculo
para estômagos fracos. Douglas nem
considera este público mimimi em suas obras. “Desterrados” está para o
Universo Teatral como os filmes do auteur GASPAR NOÉ ou XAVIER DOLAN estão para
o cinema.
É trabalho de autor, sem saídas fáceis,
finais felizes, respostas prontas. Faz pensar, não alienar. Há um paralelo até
mesmo no uso brilhante e arrebatador da luz (tanto Noé quanto Chaves partilham
uma visão similar do mundo e estética em comum. O ‘bas-fond’, os excluídos, os
desgraçados, a dor & o ser humano são o mote de suas dramaturgias. As cores
quentes, torrentes de vermelho, laranja, sangue, são seus cartões visuais. Há
de se destacar e louvar a percepção apuradíssima de Doug na utilização da
iluminação. Tive o privilégio de assistir “Desterrados” em teatros & apresentações
diversas e em TODAS elas chamava - me a atenção o apuro visual e a beleza plástica
do que se vislumbra de qualquer ponto em que se posicione o espectador. Merece destaque o
trabalho técnico do Mestre DIEGO CONSOLINI, braço direito do diretor que
executa com perfeição todas as ideias do mesmo, prestando serviço essencial em
iluminação e sonoplastia para a realização da visão muito particular do mundo
Chavesiano (que inclue uma trilha sonora que te atinge de forma tão aguda
quanto texto – interpretações - luz).
[ Da direita para a esquerda: este blogueiro que vos escreve, ELAINE ÁVILA CRUZ, DOUGLAS CHAVES, LUÍS BINOTTI & JEFF LEARDINI da COMPANHIA CORPO SANTO ]
Valendo – se de uma estratégia
enigmática Chaves nos lança em três tragédias muito intimistas para discutir
dor, perda, fim. Estas histórias se entrelaçam sem qualquer preocupação com
linearidades convencionais (uma das marcas da dramaturgia do autor – ator –
diretor extraordinaire), apenas ‘amarradas’ por um ‘quase’ personagem, a
presença ominiosa de um ser de luz & trevas, interpretado com presença
impressionante por JEFFERSON LEARDINI, que nos faz sentir com uma performance
magnética (como o mesmo anuncia em dado momento) ‘o cheiro de morte’.
Jeff aliás, inicia esta trilogia da dor
com uma figura bastante lacônica e ameaçadora no que tem de comum assim também
como no que oculta. Dividindo a cena com a bela e frágil WAL BUARQUE constroem
um crescendo de sensualidade e periculosidade que culmina na virada dramática
do clímax. Tanto Wal quanto Jeff tem uma característica bastante evidente: há
uma ingenuidade na superfície de ambos escondendo algo de pérfido ou apontando
que talvez a realidade não seja exatamente o que aparenta ser... O casal parece
saído de um trabalho do auge da carreira do Mestre Alfred Hitchcock, ela uma
Grace Kelly mais voluptuosa, ele o Anthony Perkins do auge da juventude em sua
psicose.
A segunda história vai estabelecer um tom
aparentemente mais ameno, MAS não se enganem: como mencionado anteriormente,
Douglas Chaves não faz ‘teatrão global’, para néscios. Suas obras tem
densidade, cortam-se com faca. Então o que parece (e apenas parece) carregar
doçura e amor num casal que se reencontra na verdade estará repleto de signos,
figuras fantasmagóricas Lynchianas e uma conclusão tão dolorosa quanto cortante
no que tem de verdadeiro e triste. Em tempo: destaque certamente à
interpretação de LUÍS BINOTTI, jovem ator cujo desempenho parecia crescer a
cada nova apresentação (e acreditem-me, eu assisti a “Desterrados” MUITAS
vezes) adicionando novas nuances de forma sutil e surpreendente...
Extraordinário.
Enfim chegamos à cena mais impactante, que
fecha a trilogia de maneira contundente, um tour de force de duas atrizes no
auge da emoção. O nível de intensidade atingido entre as duas é tanto, que nós,
mesmo os mais íntimos da Companhia, nos questionamos por instantes se o que
temos ali é interpretação ou os conflitos reais entre duas pessoas. Uma, a
platinada Wal Buarque. A outra, uma tempestade de sentimentos, ELAINE ÁVILA
CRUZ. A impressão que se tem ao vislumbrar esta mulher no palco é de que se
está diante de uma SuperNova, Elaine Ávila brilha e se entrega ao papel sem
reservas, desnudando-se (em todos os sentidos) e nos brindando com um
desempenho que como bem definiria o Pantera, é ‘Goddamn electric’.
Após esta torrente de sentimentos
despejados, derramados, desalojados, só resta aos espectadores atônitos
voltarem às suas casas e refletirem sobre o que vivenciaram, porque
“DESTERRADOS” é isso, uma experiência sensorial. Posso ter tentado de forma
paupérrima explicar o que é, mas é preciso ser verdadeiramente ‘desterrado’
para entender. Você tem de viver, saborear, para saber.
Costumo definir um grande espetáculo do
verdadeiro TEATRO aquele que mexe com suas entranhas, que te incomoda e faz
meditar e te faz calar do começo ao fim. A obra de Douglas Chaves e
“Desterrados” com certeza fazem o público silenciar, silêncio este que se pode cortar
no ar e que denota choque, reverência e reflexão. Sem dúvida nenhuma uma das
grandes peças do ano de 2015.
sexta-feira, 25 de dezembro de 2015
sábado, 19 de dezembro de 2015
sexta-feira, 18 de dezembro de 2015
quarta-feira, 16 de dezembro de 2015
terça-feira, 15 de dezembro de 2015
Pessoal, este texto da EMPIRE Magazine [uma das maiores / melhores de CINEMA do Mundo, sem dúvida alguma] posta "MAD MAX FURY ROAD" como [claro] O melhor filme do ano. Mas o texto é tão bom que não resisti, tinha de postar aqui [tá em inglês - sorry, sou professor mas confesso não tive saco de traduzir desta vez =]. o mais cool é que eles sacaram a referência aos Wild Boys do Duran Duran [que mencionei no dia em que assisti "Fury Road" com minha girlfriend Penny]. Gente bem informada é outra coisa ; )
WITNESS,MEDIOCRES!
WITNESS,MEDIOCRES!
1. Mad Max: Fury Road
More than 30 years after leaving Max in the wasteland, George Miller returns to his signature series with results that can conservatively be called extraordinary. On paper it doesn’t sound like much – Max (Tom Hardy, replacing Mel Gibson) and Furiosa (Charlize Theron) escape from somewhere and then go back again. But it’s the insane assemblage of post-apocalypse desert freakery and mechanical carnage that elevates Fury Road to an incredible, visceral, purely cinematic experience.This is filmmaking as myth, legend, campfire tale.What’s almost unbelievable is that this is a studio movie: Warner Bros. trusting a significant budget (estimated at $150m) to Miller’s undiluted, berserk vision. That vision includes vehicles fuelled with blood, ‘Doof Warriors’ playing flaming guitars as they hurtle into battle, CG used in respectful subservience to jaw-dropping practical stunts, and Hugh Keays-Byrne’s Immortan Joe presiding over a religious cult seemingly inspired by a Duran Duran song that was inspired by the original Mad Max films (“Wild Boys always shine”, remember). Fury Road takes notes from John Ford’s Stagecoach and Sergio Leone’s Dollars films while forging its own route, and sits alongside the previous Max films while paying no attention to continuity whatsoever. This is filmmaking as myth, legend, campfire tale. Sequels have been mooted but it’s hard to imagine ever experiencing anything like Fury Road again.
segunda-feira, 14 de dezembro de 2015
Entrevista com o Artista MARCELO DINIZ - 2015
Tecladista,
poeta, Mestre Escriba, Diniz despontou na(s) carreira(s) muito jovem
e tem brilhado desde então obtendo reconhecimento mais do que
merecido em tudo o que faz, primeiro na música e posteriormente com
a literatura.
Foi
numa noite tranquila que Marcelo concedeu-me esta entrevista na
presença de sua parceira querida Patrícia Borges, um café com
poesia e duas doses de generosidade como é de praxe em se tratando
deste Mestre Merlin da cidade de Campinas...
Leonardo
Mattar Monteiro – O que é poesia?
Marcelo
Diniz – Poesia é a VIDA. Poesia é perguntar o que é felicidade
de sopetão, ligando uma câmera no rosto de alguém...
LMM
– E o que é felicidade?
MD
- Felicidade é ter a mão para estender; é a mão estendida; é o
ato de doar [fazendo um gesto que é bastante característico de
Diniz, muito conhecido daqueles que convivem com o artista, como
ofertando algo em suas mãos]...
LMM
- Sua carreira musical é um tanto conhecida, mas como é que a
literatura entrou em sua vida [a poesia inclusa, claro]?
MD
– Na verdade, acho que sempre esteve nela desde tenra idade. Tudo o
que lia e absorvia desde os sete, oito anos de idade ia aos poucos
formando o futuro escritor – depois, na escola, havia a
obrigatoriedade da leitura & análise de várias obras literárias
a cada bimestre: Machado de Assis, Lima Barreto, mas sabe como é,
tudo que é obrigatório fica chato...
LMM
– E aí você odiava aquilo...
MD
– Exatamente. Mas de repente surge um Saint Exupery aqui, um Lewis
Carroll ali, e quando você se dá conta o prazer da leitura já se
desenvolveu em você.
LMM
– E o de escrever?
MD
– Começa muito cedo também, onze, doze... ao menos pra mim. Sabe
como é, você escreve aquelas cartinhas apaixonadas para várias
menininhas da escola, pra quem você nunca as irá entregar, e assim
vai depurando seu estilo pouco a pouco. Além do quê, a música
também desempenha um papel nisso tudo. Você começa a prestar
atenção nas letras, que também são influenciadas pela literatura.
Então você ouve/lê Jim Morrison, influenciado por Arthur Rimbaud e
William Blake, você trava contato com Humberto Gessinger que por sua
vez lê/cita Moacyr Scliar e Jean Paul Sartre, Roger Waters & por
aí vai...
LMM
– E os poemas surgem assim também?
MD
– Sim, porque poesia pode ser curta, rápida, sintética,
exatamente como uma canção. Em quatro linhas pode-se descrever um
sentimento. Como...
Tiro no pé
Pensas
que é a sogra
A grande cobra
Dessa novela ?
Não se engane meu amigo
Ainda terás que passar
Pela irmã mais velha
A grande cobra
Dessa novela ?
Não se engane meu amigo
Ainda terás que passar
Pela irmã mais velha
É esta
a questão: prosa, letra, verso, são todas expressões que vem de um
mesmo elemento denominado ARTE.
LMM
– Como músico, você começa em 1996 e se torna bastante conhecido
no cenário de Campinas a partir de 2007. Quando é que você
considera seu início 'oficial' como escritor?
MD
– Acho que a partir de 2010, mais especificamente 01 de janeiro do
ano de 2010.
LMM
– Por quê?
MD
– É quando inicio meu blog.
http://marcelodiniz.net/
http://sonhoanalogico.blogspot.com.br/
A
data foi escolhida a dedo. Tudo tem seu simbolismo...
LMM
– Podemos considerar então sua carreira literária meteórica em
comparação com a musical...
MD
– Sim; foram quatro livros já publicados, com três ou quatro a
caminho para 2016, todos realizados do jeito que eu queria,
financiados por mim, sem a interferência de editoras; posso dizer
que foi tão recompensador quanto surpreendente. Tive o envolvimento
de editoras, claro: Iluminata, Essencial, com a mediação do Carlos
Torres, que foi não somente editor mas um agente literário atuante,
que coloca sua obra em Feiras de Livros, stands, algo importante para
qualquer escritor, pois da mesma forma que o autor ajuda a colocar
uma editora em evidência, a mesma divulga e distribue seu trabalho.
Como foi o caso da Delicatta, que me convidou para seu stand na
Bienal do Livro.
LMM
– Já que mencionou, como foi participar da Bienal de 2014? Qual é
a sensação, ainda mais para um autor tão jovem como você?
MD
– Foi impressionante em todos os sentidos possíveis. De repente,
você se vê sendo prestigiado por um público totalmente novo,
jovem, e que está ali interessado em sua obra. É incrível.
LMM
– Falamos muito de sua carreira literária mas vocẽ tem uma obra
musical que se insere tranquilamente entre as dez mais importantes da
Música Eletrônica já lançadas neste país, com resenhas elogiosas
de especialistas da área. Fale-nos um pouco da história &
trajetória do álbum “Analog Dream”.
MD
– É muito curioso; na verdade, posso definir este trabalho como 'a
contradição contra a tradição'. Tudo começou sem a menor
pretensão. Era apenas um experimento, eu testando timbres como
músico. Este processo me levou a reconhecer padrões das obras de
outros músicos que já admirava como Synergy, Jean-Michel Jarre,
Tangerine Dream, Vangelis, etc. As faixas começaram a tomar forma,
se transformando numa espécie de 'trilha sonora para um filme
inexistente'... “Analog Dream” nasce, se desenvolve e é gestado
assim, indo parar nas prateleiras do mundo, como gosto de dizer. Foi
quando tomou vida própria. As resenhas de camaradas de profissão
começaram a pipocar, me deixando lisonjeado sinceramente; a Livraria
Cultura adquiriu um lote, enviou para os sete Estados do Brasil onde
tem franquias, uma cópia acabou na mão do Caco Barcelos, que por
sua vez inseriu-o na(s) trilha(s) do Programa “Profissão
Repórter”, usando trechos & trilhas do “Analog...” até
hoje. Uma trajetória admirável.
https://itunes.apple.com/us/album/analog-dream/id519345941
LMM
– E a Internet? Estamos numa época em que mais e mais artistas tem
migrado para o formato digital obtendo êxito. E quanto a você, o
que pensa disto tudo?
MD
– Posso afirmar sem sombra de dúvida que o virtual é a próxima
onda. Porque se vocẽ pensar bem, música sempre foi uma forma de
Arte que você não possui materialmente. Existe o CD no formato
físico, claro, mas na realidade a música é intangível, você não
a segura, não a possue, só pode ouvir e sentir. Há o fetiche pelo
cd ou livro físico, sempre que possível vou querer minha arte
nestes formatos. Porém, o digital tem uma perenidade única. Você
nunca terá de se preocupar com tiragem, falta do produto, enfim, o
download de suas obras seja em que expressão artística fôr, estará
ali para ser adquirido forever.
LMM
– Falemos de influências, inspirações, obras, escribas e poetas
que leia & admire. Sua obra poética parece ter muitos paralelos
bem delineados com a de Mário Quintana, estou certo?
MD
– Fico feliz que pense assim porque é verdade; Quintana é meu
poeta favorito. Mas posso citar muitos outros: Fernando Pessoa, por
exemplo, um colosso que descobri na adolescência. Certa vez foi
elaborada uma lista de 10 Poetas mais importantes da Língua
Portuguesa e ele era os SETE primeiros colocados dentre os escolhidos
[ao leitor não familiarizado com Pessoa e sua obra, ler a resenha
sobre o mesmo & seus heterônimos elaborada por mim e postada
aqui no blog]! Mas não nos esqueçamos dos grandes talentos vivos,
principalmente da minha região e país. Humberto Gessinger, Lenine
Rocha, que estará entre vários outros poetas no cast da antologia
“Qualquer Amor” a ser lançada em breve, Fla Perez... Na
Literatura mais especificamente, citaria Dostoievsky, com seu
detalhismo descritivo impressionante, Guimarães Rosa, José Osório,
cuja obra “Crônicas da Morte” tive o privilégio de obter em
primeira mão das próprias do autor em Itú [que em breve
entrevistarei para este blog]
LMM
– Agora quero saber sobre os seus trabalhos/projetos futuros. Pode
adiantar quais são?
MD
– Sim, certamente. Comecemos com “ALQUIMIA”, novo álbum
autoral que de certa forma é o ápice de vários experimentos entre
minha música e minha poesia. É um trabalho que provavelmente
encontrará morada fundamentalmente no mundo virtual, com
participações especiais de Sheila LeDu, Rick Furlani, Fabiano
Negri, Patrícia Borges [& até deste que vos escreve neste blog
=]. Há a “Qualquer Amor”, já citada anteriormente, uma
compilação/antologia à Guimarães Rosa com trabalhos meus e de
mais cinco outros poetas. Já deveria ter sido lançada em Outubro
deste ano. Porém devido a cirurgia e cuidados de minha mãe Lúcia
recentemente teve de ter a publicação adiada para 2016. Também
elaboro há tempos um livro de crônicas intitulado “Café, poesia
e duas doses de ironia”, com minhas elocubrações sobre o mundo à
nossa volta, um novo livro de poesias e finalmente um Romance. Não
vou adiantar muito sobre este último mas posso dizer que é dedicado
à minha amada companheira Patrícia Borges...
LMM
– Com tantas referências & influências pairando sobre a alma
do artista Marcelo Diniz, podemos esperar uma Ópera Rock em seu
currículo um dia?
MD
– É claro que sim! Totalmente possível. Nunca diga nunca.
[
clássico e típico sorriso de Mona Lisa no rosto de querubim. Este é
o grande Marcelo Diniz =]
mhdiniz@gmail.com
Bibliografia
– obras poéticas - MARCELO DINIZ :
- ENTRE SONHOS E MUROS , 2011
- ENTRELINHAS , 2012
- SONHO COTIDIANO , 2013
- PARTHENON , 2014
Resenha sobre o texto FERNANDO PESSOA ( 1888 – 1935 ) de RICHARD ZENITH e publicado no Dicionário de Fernando Pessoa e do Modernismo Português
Apaixonante
e ampla visão não somente da obra igualmente apaixonante do grande
Poeta Português Fernando Pessoa mas também de sua vida fascinante,
é o que nos oferece este texto precioso de Richard Zenith.
Sua
análise da relação Pessoa com as línguas – não somente o
português, 'materna', como o inglês e até mesmo o francês,
'adotivas' – traça o caminho intelectualmente percorrido pelo
autor desde a mais tenra infância até sua maturidade como poeta e
escritor. Curiosa a forma como nesta quase 'dissecação' do escritor
um paralelo é traçado entre a obra de Pessoa em si (& de seus
inúmeros heterônimos, inclusive em língua inglesa e até francesa,
como Jean Seul) e toda a literatura que o influenciou: Hugo,
Baudelaire, Rimbaud por exemplo, no francês, Shakespeare, Dickens,
Whitman no inglês (este último inclusive muito provavelmente
responsável por ter deixado uma impressão indelével no autor
português e pelo salto qualitativo de Pessoa em direção ao
movimento do qual acabou tornando-se de certa forma um símbolo – o
Modernismo)...
Importante
salientar que como o escritor criou diferentes heterônimos, é clara
e obviamente possível encontrar na obra de Fernando Pessoa
diferentes estilos.
O
versátil e brilhante autor escreveu poemas em inglês, poesias
líricas e poesias históricas com caráter nacionalista, (aliás,
ironicamente, ele teve mais material escrito em inglês publicado em
vida do que seus trabalhos em língua pátria), o que se percebe
facilmente se analisados os trabalhos de um de seus heterônimos
diretamente 'influenciado' pela língua anglo saxã (Alberto
Caieiro). Com todos estes alteregos tendo biografias específicas,
cada 'autor' dentro do benignamente 'posesso' gênio de Pessoa possui
textos com temas e opiniões muito variados e diferentes entre si.
Caeiro por exemplo (apenas para nos ater ao previamente citado) é o
mestre, sendo admirado por todos os outros.
O
mergulho na intimidade deste ícone da Literatura Portuguesa
promovido por Zenith nos faz entender muito melhor a multifacetada e
arrebatadora personalidade do ortônimo Fernando Pessoa assim como
também os porquês da 'usina criativa geradora interna' dos
heterônimos do artista.
É
justamente na obra de um heterônimo, um de seus mais célebres no
caso (Álvaro de Campos), como bem relembra Zenith, que parece
definir e explicar all the same o TODO e os múltiplos Fernando
Pessoa:
“Ultimatum
propõe a «abolição do dogma da personalidade» e afirma que
«nenhum artista deverá ter só uma personalidade», já que o
«maior artista será o que menos se definir, e o que escrever em
mais gêneros com mais contradições e dissemelhanças».
O
maior artista, por outras palavras, terá múltiplas personalidades
(«quinze ou vinte» estipula o manifesto mais adiante), exatamente
como Fernando Pessoa”; que não foi somente um escritor de talento
gigantesco e aparentemente inesgotável como também esteve muito
adiante de seu tempo – justamente por isso talvez tenha sido um dos
definidores do movimento pelo qual sua obra ficou imortalizada, o
Modernismo.
Zenith
de certa forma somente merece uma menção derrogatória apenas no
aspecto da abordagem da fase esotérica de Pessoa, mencionada um
tanto 'en passant'.
Fase
esta com um heterônimo astrólogo, passagens e trabalhos profundos
(como “Mensagem”) e situações bem pitorescas como a amizade
formada com uma das figuras mais polêmicas da História, o Ocultista
Negro Aleister Crowley, o escritor português inclusive tendo se
mostrado/provado superior a Crowley corrigindo um erro do mago de
Therion em um mapa astrológico, episódio aliás que gerou
justamente o interesse de Crowley em conhecer Pessoa em pessoa – no
pun intended – e a amizade entre os dois. Entre outros fatos
tenebrosos, Aleister teve sua Ordo Templi Orientis aliada do regime
do Reich Hitleriano, e o célebre episódio de ter surgido/sido visto
em dois locais diferentes do mundo gerava comentários jocosos por
parte de Pessoa, apesar de tempos depois o próprio poeta português
ter afirmado oficialmente em depoimentos à polícia que via o
'fantasma' de Crowley vagando pelas ruas da cidade de Lisboa... Os
espíritas de linha Kardecista & estudiosos do assunto, tem
explicações possíveis para ambas as manifestações (vale o
esclarecimento: Crowley teria se suicidado naquela cidade no ano de
1930, mas vários indícios levam a crer que pode ter havido um
homicídio minuciosamente planejado por outro ocultista negro de nome
York, o qual parece corroborado por algumas opiniões do amigo e
confidente de então Pessoa. Para muitos, no entanto, isto não
passou de uma 'blague').
Zenith
sobrevoa estes fatos assim como a busca incessante pela verdade e a
chave da vida (que se tornou um tanto frequente e obsessiva na obra
do autor) com relativa displiscência. Porém, nada de tão grave que
comprometa o texto de Richard em si ou mesmo o prazer na leitura do
mesmo.
A
obra do chamado 'Pai do Modernismo Português' é inegavelmente
obrigatória para quaisquer estudiosos sérios das Artes e mais
especificamente da Literatura. Um autor a constar das listas de
escritores essenciais de todos os tempos.
O
trabalho de Richard Zenith para o Dicionário de Fernando Pessoa e do
Modernismo Português torna-se igualmente obrigatório no que tem de
generoso e esclarecedor ao abordar Pessoa, com aprofundamento em
aspectos do humano e do artístico sem ser pedante, prolixo, ou mesmo
obscuro.
É
na clareza de suas exposições e explanações que reside a grande
força do texto. É possível vislumbrar Pessoa como se ainda vivesse
entre nós. Impossível seria até mesmo para o mais desinteressado
dos leitores finalizar a leitura do mesmo sem carregar consigo
entendimento geral sobre o autor, mesmo que nunca tenha lido
“Primeiro Fausto” e/ou “O Banqueiro Anarquista” (duas pérolas
saborosas dentre seu numeroso corpo de obra e exercícios eruditos de
alta linguagem, poesia e literatura), ou sequer conhecimento prévio
do que seriam 'heterônimos'.
Aliás,
como forma de não só complementar mas também de louvar o verbete
de Zenith e a obra já elogiada em si, recomenda-se mergulhar nas
inebriantes e virtuosas peripécias literárias de Fernando Pessoa
logo após a leitura.
Boa
viagem...
sexta-feira, 11 de dezembro de 2015
quinta-feira, 10 de dezembro de 2015
Entrevista com o autor FRANCISCO FERNANDES de ARAÚJO
Nascido em 09 de Maio de 1937
(portanto um Taurino aguerrido, como também é minha namorada) em
Portugal, o nobre autor Francisco Fernandes de Araújo tem sido um
exemplo para o cenário literário Brasileiro, há exatamente uma
década, não só por suas obras mas pela iniciativa pela qual também
ficou famoso,com ampla divulgação da imprensa, de “1 Livro por 1
Sorriso”, em que a intenção sempre foi exatamente essa que
enuncia o título da campanha: distribue livros do autor em troca de
um simples sorriso dos interessados que passam pelo Largo do Rosário
na cidade de Campinas que [apesar de natural de SÃO PAULO como eu]
adotou como morada definitiva há quase cinquenta anos.
Tive o privilégio de passar
uma hora saborosa com Mestre Araújo falando sobre assuntos diversos
& essenciais à vida de um escritor. Abaixo a transcrição de
nossa conversa:
LMM – Mestre Francisco,
fale–me um pouco da sua trajetória como ser humano & o que o
motivou a se tornar escritor.
Francisco Fernandes de Araújo
– Na verdade é curioso, porque não posso mentir e dizer que tive
formação acadêmica para tanto. Eu sempre fui um leitor ávido, foi
através do prazer e do hábito da leitura que desenvolvi não só
meu gosto mas meu estilo literário. Vim para Campinas em 1969 e
desde então galguei meu caminho pouco a pouco no campo do Direito,
me tornei Juiz & fiz uma carreira considerável e de respeito
nesta área. Eu fiquei conhecido entre advogados & companheiros
de trabalho em geral como o 'Juiz Poeta', porque ao mesmo tempo que
evitava o pedantismo do uso de expressões em latim [que domino muito
bem mas o homem comum muitas vezes não entenderia], optando pelo bom
senso e pela praticidade da língua, também proferia sentenças em
prosa e verso, o que me valeu esta alcunha & o estilo muito
particular... Meu caminho foi abençoado mas nunca desprovido de
trabalho & muito afinco. Não quero me gabar, mas tive uma
trajetória bastante louvável, na qual já apontavam minha vocação
para a profissão (ões) à(s) qual (ais) me dediquei depois, a ponto
de ter recebido elogios de mestres da área como o querido &
falecido Paulo Weber de Morais [a quem dediquei post mortem uma de
minhas obras] & Mestre Barretinho quando ainda no período de
formação do homem que desembocaria depois no Juiz, autor jurídico
e posteriormente literário em que me tornei...
Sempre tive respeito com o
dinheiro do contribuinte; como Juiz, tinha consciência de não
desperdiçar o dinheiro público. Portanto, mesmo com a vocação
literária nata & diversas obras jurídicas escritas por vários
anos [Nota: Francisco tem dezenas de tomos de cunho técnico
publicados, que foram verdadeiros best sellers, com enorme aceitação
e inúmeras edições esgotadas], só fui me voltar à Literatura
como um todo a partir de 1995.
LMM – E qual a razão
específica disto?
FFdeA- Porque somente fiquei e me
senti totalmente livre para escrever muita coisa sobre vários temas
que queria quando me aposentei oficialmente como Juiz. Me trouxe a
liberdade para me dedicar integralmente à Literatura; desde então,
escrevi livros de crônicas, romances [como “O Juiz do Turbante
Dourado”, que recomendo dentre tantas obras deste autor ao leitor
de primeira viagem], pensamentos [“Pedaços de Vida nas Asas do
Vento”, de 2008],poesias... Já se vão dez anos de dedicação
ininterrupta ao escrever...
LMM – E como surge a iniciativa
de criar uma campanha extraordinária como a que idealizou e leva
adiante há tanto tempo todos os anos no Largo do Rosário?
FFdeA – O gosto pela leitura
fez-me quem sou hoje, criou o autor que vivia adormecido dentro de
mim. Nada mais justo que tentar de alguma forma plantar esta semente
em outrem, para que quem sabe germine como germinou em mim mesmo. Não
conheço melhor maneira de se fazer isto do que através de minhas
obras tentar incutir nas pessoas o gosto pela leitura. Distribuindo
as mesmas gratuitamente todos estes anos garante ao menos a chance
disto a quem não tem condições de pagar para adquirir livros neste
país, tão desigual.
LMM – O Sr. demonstra em suas
palavras uma preocupação muito grande com o povo brasileiro e
carrega consigo a ética como essencial...
FFdeA – Sempre. Note bem, não
falo isto como uma forma de autopromoção ou de me glorificar; mas
minha consciência sempre falou mais alto. Mesmo intencionando
defender Mestrado & Doutorado em minha área [como o fez, com
distinção & louvor, fato já mencionado anteriormente nesta
entrevista], somente me dediquei a estas atividades após me
aposentar. Até 1995, não achava justo deixar de trabalhar e dedicar
tempo somente à minha(s) pós graduação(ões) com o contribuinte
pagando por isso. Hoje, pago pelas edições de todos os meus livros
do meu próprio bolso. Não cobro pelos mesmos e pretendo continuar
assim o fazendo. Já recebi propostas de parceria de editoras mas que
no final das contas só queriam tirar proveito de minha fama &
carreira já estabelecidas. Tenho uma vida estável, somente eu &
minha amada [a esposa Ana Arnaut], filhos criados, minha
aposentadoria nos basta com certeza. Mas quero deixar bem claro: não
acho que dinheiro seja exatamente ruim. Dinheiro é um meio para um
ou muitos fins, mas que sejam nobres, entende? Aí quanto mais
melhor. Aliás, outro dia mesmo brincava aqui com as meninas e a
Sandra [Acessora de Mestre Araújo no Projeto e a quem dedico um
agradecimento especial por ter sido doce e atenciosa no auxílio a
esta entrevista o tempo todo], que se ganhasse na Mega Sena ou coisa
que a valha, meu sonho era construir um Hospital para atender à toda
a população idosa desta cidade, quiçá do país inteiro...
LMM – Há algum autor ou autores
que te chamem a atenção atualmente no cenário da Literatura
Brasileira ou mesmo no exterior?
FFdeA – Há um fato curioso
envolvendo um autor que de certa forma representa a cena daqui e lá
de fora. Tenho um livro intitulado “O Menino que queria ser Paulo
Coelho” que homenageava o autor do título através de um
personagem fictício; da época da publicação do mesmo, recebi
generoso agradecimento do Paulo pela mesma [ este vídeo se encontra
disponível na plataforma YouTube no canal do autor escritorFran2010 https://www.youtube.com/watch?v=YOPquxEMvqQ ]
LMM – Para finalizar esta
entrevista com chave de ouro, planos para o futuro?
FFdeA – Já tenho
quatro novos trabalhos que estarão prontos e publicados para a
campanha do próximo ano. Um tomo de reflexões, um de crônicas, um
Romance & um de poesias. Eu não paro! Intenciono
continuar a escrever e distribuir meus livros todos os anos enquanto
DEUS me permitir e me der condições para isso.
Com esta declaração termino ainda com uma citação do
próprio autor:
“NINGUÉM É O CENTRO DO MUNDO.
ELE PERTENCE A DEUS”.
OBRIGADO Mestre Chico!
terça-feira, 8 de dezembro de 2015
Resenha do Espetáculo “PESA-ME MUCHO” de LUCIANE OLENDZKI
Todas as vezes em que tenho o privilégio
de ver um artista de rua se apresentando fico admirado e me pergunto intimamente
quanto de desprendimento e coragem são necessários para se expôr de corpo e
alma à voracidade de (quaisquer) selvas urbanas nas quais moramos.
Imagine então se você além de artista fôr
mulher, frágil pela própria natureza física (nunca a espiritual com certeza),
acompanhada de um caixão e 'protegida' apenas e simplesmente por um 'cordão de
não isolamento' no chão.
E isso tudo nos é apresentado antes
sequer do espetáculo se iniciar...
Este é “Pesa–me Mucho”, esta é LUCIANE OLENDZKI ou Palhaça Querubina, como ela prefere ser vista/conhecida.
Luciane chega, com uma pequena entourage,
seus objetos de cena - entre os quais se destaca o caixão citado – e como se
diria costumeiramente com a cara e a coragem. Com sua doçura característica,
chama os transeuntes ao ‘picadeiro público’, se transforma aos poucos em seu
alter ego, a desajeitada e igualmente cativante Querubina.
A partir daí o que vivenciaremos é uma
farsa divertida que de engraçada tem apenas a superfície.
Aos que tem alma, aos sensíveis, aos que
algum dia perderam os que amavam (e que não se enganem aqueles que ainda não
pois esta é uma condição sine qua non da vida), “Pesa-me Mucho” irá falar
profundamente, fazendo-nos questionar o verdadeiro sentido da vida, não o ter
desta ‘sociedade líquida’ como bem define Bauman, mas o ser.
Querubina brinca, provoca, chama as
pessoas à participarem de uma comemoração em homenagem de seu amado falecido
Genival (o habitante daquele caixão) e honrar seu derradeiro desejo ainda em
vida.
Muito curioso notar a desconfiança,
silêncio, atitudes agressivas até por parte de muitos transeuntes. Pode-se
explicar (ou tentar-se) tais fatos pela cultura da futilidade e ignorância à
qual nosso povo é empurrado todos os dias. Seja belo, seja jovem, jamais
questione, mantenha-se na superfície, jamais desça ao fundo de sua alma.
Alguns, talvez os mais despertos, e mesmo os ébrios (e me incluo, com muito
orgulho em ambas as categorias) ‘embarcam’ na celebração de Querubina. Talvez
porque também precisem transgredir, talvez por carência afetiva, ou
simplesmente por entenderem mesmo que superficialmente que a única certeza que
temos quando nascemos é da morte.
Pode-se analisar “Pesa-me Mucho” por
várias interpretações/ângulos possíveis. Há um que de gótico em colocar uma
clown vestida de tule preto declarando amor incondicional a um defunto... Há
até uma sensualidade mansa e envolvente em Querubina – principalmente porque o
texto brinca muito com uma série de questões sexuais e uns poucos felizardos
(eu, por exemplo) terminarão esta jornada comprometidos e casados com uma
apaixonante e espertíssima Querubina (e como dizer não?)...
E justamente aí que reside a beleza maior
de “Pesa-me Mucho” – um espetáculo pensado & repensado com profundidade por
Lu Olendzki & Ésio Magalhães (e não poderia ser de outra forma, já que
ambos fazem parte do grupo dos grandes e verdadeiros palhaços do planeta,
Maestro e Maestrina de tão nobre arte): nos chamando à verdade da vida,
compartilhando seus sentimentos e convidando à celebração, Querubina quebra
todas as regras, trocando o palco italiano pelo inesperado e aliada à música
comandada com inteligência pelo DJ Caveirinha (Matheus), gerando uma
experiência necessária. Sem qualquer tipo de ironia, todo mundo deveria ver
“Pesa-me Mucho” ao menos uma vez na vida antes de morrer.
Tive esta felicidade algumas vezes. Posso
morrer feliz. Os cabelos desgrenhados, prateados e esvoaçantes da diáfana
Querubina são a afirmação da natureza anárquica e apaixonante do palhaço.
Poucas vezes vi algo que pudesse simbolizar tão perfeitamente aquela já célebre
máxima em latim – carpe diem!
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