sábado, 26 de dezembro de 2015

Resenha Espetáculo DESTERRADOS - Companhia CORPO SANTO

          DOUGLAS CHAVES não é um diretor de lugares comuns. ALIÁS, um de seus espetáculos anteriores já denotava este fato a partir do título - LUGAR INCOMUM. Após um espetáculo impactante depois do outro (o já citado anteriormente, “PEQUENOS DESASTRES”) o dramaturgo / diretor nos acerta com outro soco no estômago – DESTERRADOS, de sua Companhia Corpo Santo, prestes a completar dez anos de carreira nos palcos da cidade de Campinas.


         [ Mestre DOUGLAS CHAVES & o técnico DIEGO CAVALARI CONSOLINI ]

         E com certeza, não é um espetáculo para estômagos fracos. Douglas nem  considera este público mimimi em suas obras. “Desterrados” está para o Universo Teatral como os filmes do auteur GASPAR NOÉ ou XAVIER DOLAN estão para o cinema.
        É trabalho de autor, sem saídas fáceis, finais felizes, respostas prontas. Faz pensar, não alienar. Há um paralelo até mesmo no uso brilhante e arrebatador da luz (tanto Noé quanto Chaves partilham uma visão similar do mundo e estética em comum. O ‘bas-fond’, os excluídos, os desgraçados, a dor & o ser humano são o mote de suas dramaturgias. As cores quentes, torrentes de vermelho, laranja, sangue, são seus cartões visuais. Há de se destacar e louvar a percepção apuradíssima de Doug na utilização da iluminação. Tive o privilégio de assistir “Desterrados” em teatros & apresentações diversas e em TODAS elas chamava - me a atenção o apuro visual e a beleza plástica do que se vislumbra de qualquer ponto em que se posicione o espectador. Merece destaque o trabalho técnico do Mestre DIEGO CONSOLINI, braço direito do diretor que executa com perfeição todas as ideias do mesmo, prestando serviço essencial em iluminação e sonoplastia para a realização da visão muito particular do mundo Chavesiano (que inclue uma trilha sonora que te atinge de forma tão aguda quanto texto – interpretações - luz).    



 [ Da direita para a esquerda: este blogueiro que vos escreve, ELAINE ÁVILA CRUZ, DOUGLAS CHAVES, LUÍS BINOTTI & JEFF LEARDINI da COMPANHIA CORPO SANTO ]

Valendo – se de uma estratégia enigmática Chaves nos lança em três tragédias muito intimistas para discutir dor, perda, fim. Estas histórias se entrelaçam sem qualquer preocupação com linearidades convencionais (uma das marcas da dramaturgia do autor – ator – diretor extraordinaire), apenas ‘amarradas’ por um ‘quase’ personagem, a presença ominiosa de um ser de luz & trevas, interpretado com presença impressionante por JEFFERSON LEARDINI, que nos faz sentir com uma performance magnética (como o mesmo anuncia em dado momento) ‘o cheiro de morte’.


      Jeff aliás, inicia esta trilogia da dor com uma figura bastante lacônica e ameaçadora no que tem de comum assim também como no que oculta. Dividindo a cena com a bela e frágil WAL BUARQUE constroem um crescendo de sensualidade e periculosidade que culmina na virada dramática do clímax. Tanto Wal quanto Jeff tem uma característica bastante evidente: há uma ingenuidade na superfície de ambos escondendo algo de pérfido ou apontando que talvez a realidade não seja exatamente o que aparenta ser... O casal parece saído de um trabalho do auge da carreira do Mestre Alfred Hitchcock, ela uma Grace Kelly mais voluptuosa, ele o Anthony Perkins do auge da juventude em sua psicose.

      A segunda história vai estabelecer um tom aparentemente mais ameno, MAS não se enganem: como mencionado anteriormente, Douglas Chaves não faz ‘teatrão global’, para néscios. Suas obras tem densidade, cortam-se com faca. Então o que parece (e apenas parece) carregar doçura e amor num casal que se reencontra na verdade estará repleto de signos, figuras fantasmagóricas Lynchianas e uma conclusão tão dolorosa quanto cortante no que tem de verdadeiro e triste. Em tempo: destaque certamente à interpretação de LUÍS BINOTTI, jovem ator cujo desempenho parecia crescer a cada nova apresentação (e acreditem-me, eu assisti a “Desterrados” MUITAS vezes) adicionando novas nuances de forma sutil e surpreendente... Extraordinário.

     Enfim chegamos à cena mais impactante, que fecha a trilogia de maneira contundente, um tour de force de duas atrizes no auge da emoção. O nível de intensidade atingido entre as duas é tanto, que nós, mesmo os mais íntimos da Companhia, nos questionamos por instantes se o que temos ali é interpretação ou os conflitos reais entre duas pessoas. Uma, a platinada Wal Buarque. A outra, uma tempestade de sentimentos, ELAINE ÁVILA CRUZ. A impressão que se tem ao vislumbrar esta mulher no palco é de que se está diante de uma SuperNova, Elaine Ávila brilha e se entrega ao papel sem reservas, desnudando-se (em todos os sentidos) e nos brindando com um desempenho que como bem definiria o Pantera, é ‘Goddamn electric’.

     Após esta torrente de sentimentos despejados, derramados, desalojados, só resta aos espectadores atônitos voltarem às suas casas e refletirem sobre o que vivenciaram, porque “DESTERRADOS” é isso, uma experiência sensorial. Posso ter tentado de forma paupérrima explicar o que é, mas é preciso ser verdadeiramente ‘desterrado’ para entender. Você tem de viver, saborear, para saber.

     Costumo definir um grande espetáculo do verdadeiro TEATRO aquele que mexe com suas entranhas, que te incomoda e faz meditar e te faz calar do começo ao fim. A obra de Douglas Chaves e “Desterrados” com certeza fazem o público silenciar, silêncio este que se pode cortar no ar e que denota choque, reverência e reflexão. Sem dúvida nenhuma uma das grandes peças do ano de 2015.

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