DOUGLAS CHAVES
não é um diretor de lugares comuns. ALIÁS, um de seus espetáculos anteriores já
denotava este fato a partir do título - LUGAR INCOMUM. Após um espetáculo
impactante depois do outro (o já citado anteriormente, “PEQUENOS DESASTRES”) o dramaturgo
/ diretor nos acerta com outro soco no estômago – DESTERRADOS, de sua Companhia
Corpo Santo, prestes a completar dez anos de carreira nos palcos da cidade de
Campinas.
[ Mestre DOUGLAS CHAVES & o técnico DIEGO CAVALARI CONSOLINI ]
E com certeza, não é um espetáculo
para estômagos fracos. Douglas nem
considera este público mimimi em suas obras. “Desterrados” está para o
Universo Teatral como os filmes do auteur GASPAR NOÉ ou XAVIER DOLAN estão para
o cinema.
É trabalho de autor, sem saídas fáceis,
finais felizes, respostas prontas. Faz pensar, não alienar. Há um paralelo até
mesmo no uso brilhante e arrebatador da luz (tanto Noé quanto Chaves partilham
uma visão similar do mundo e estética em comum. O ‘bas-fond’, os excluídos, os
desgraçados, a dor & o ser humano são o mote de suas dramaturgias. As cores
quentes, torrentes de vermelho, laranja, sangue, são seus cartões visuais. Há
de se destacar e louvar a percepção apuradíssima de Doug na utilização da
iluminação. Tive o privilégio de assistir “Desterrados” em teatros & apresentações
diversas e em TODAS elas chamava - me a atenção o apuro visual e a beleza plástica
do que se vislumbra de qualquer ponto em que se posicione o espectador. Merece destaque o
trabalho técnico do Mestre DIEGO CONSOLINI, braço direito do diretor que
executa com perfeição todas as ideias do mesmo, prestando serviço essencial em
iluminação e sonoplastia para a realização da visão muito particular do mundo
Chavesiano (que inclue uma trilha sonora que te atinge de forma tão aguda
quanto texto – interpretações - luz).
[ Da direita para a esquerda: este blogueiro que vos escreve, ELAINE ÁVILA CRUZ, DOUGLAS CHAVES, LUÍS BINOTTI & JEFF LEARDINI da COMPANHIA CORPO SANTO ]
Valendo – se de uma estratégia
enigmática Chaves nos lança em três tragédias muito intimistas para discutir
dor, perda, fim. Estas histórias se entrelaçam sem qualquer preocupação com
linearidades convencionais (uma das marcas da dramaturgia do autor – ator –
diretor extraordinaire), apenas ‘amarradas’ por um ‘quase’ personagem, a
presença ominiosa de um ser de luz & trevas, interpretado com presença
impressionante por JEFFERSON LEARDINI, que nos faz sentir com uma performance
magnética (como o mesmo anuncia em dado momento) ‘o cheiro de morte’.
Jeff aliás, inicia esta trilogia da dor
com uma figura bastante lacônica e ameaçadora no que tem de comum assim também
como no que oculta. Dividindo a cena com a bela e frágil WAL BUARQUE constroem
um crescendo de sensualidade e periculosidade que culmina na virada dramática
do clímax. Tanto Wal quanto Jeff tem uma característica bastante evidente: há
uma ingenuidade na superfície de ambos escondendo algo de pérfido ou apontando
que talvez a realidade não seja exatamente o que aparenta ser... O casal parece
saído de um trabalho do auge da carreira do Mestre Alfred Hitchcock, ela uma
Grace Kelly mais voluptuosa, ele o Anthony Perkins do auge da juventude em sua
psicose.
A segunda história vai estabelecer um tom
aparentemente mais ameno, MAS não se enganem: como mencionado anteriormente,
Douglas Chaves não faz ‘teatrão global’, para néscios. Suas obras tem
densidade, cortam-se com faca. Então o que parece (e apenas parece) carregar
doçura e amor num casal que se reencontra na verdade estará repleto de signos,
figuras fantasmagóricas Lynchianas e uma conclusão tão dolorosa quanto cortante
no que tem de verdadeiro e triste. Em tempo: destaque certamente à
interpretação de LUÍS BINOTTI, jovem ator cujo desempenho parecia crescer a
cada nova apresentação (e acreditem-me, eu assisti a “Desterrados” MUITAS
vezes) adicionando novas nuances de forma sutil e surpreendente...
Extraordinário.
Enfim chegamos à cena mais impactante, que
fecha a trilogia de maneira contundente, um tour de force de duas atrizes no
auge da emoção. O nível de intensidade atingido entre as duas é tanto, que nós,
mesmo os mais íntimos da Companhia, nos questionamos por instantes se o que
temos ali é interpretação ou os conflitos reais entre duas pessoas. Uma, a
platinada Wal Buarque. A outra, uma tempestade de sentimentos, ELAINE ÁVILA
CRUZ. A impressão que se tem ao vislumbrar esta mulher no palco é de que se
está diante de uma SuperNova, Elaine Ávila brilha e se entrega ao papel sem
reservas, desnudando-se (em todos os sentidos) e nos brindando com um
desempenho que como bem definiria o Pantera, é ‘Goddamn electric’.
Após esta torrente de sentimentos
despejados, derramados, desalojados, só resta aos espectadores atônitos
voltarem às suas casas e refletirem sobre o que vivenciaram, porque
“DESTERRADOS” é isso, uma experiência sensorial. Posso ter tentado de forma
paupérrima explicar o que é, mas é preciso ser verdadeiramente ‘desterrado’
para entender. Você tem de viver, saborear, para saber.
Costumo definir um grande espetáculo do
verdadeiro TEATRO aquele que mexe com suas entranhas, que te incomoda e faz
meditar e te faz calar do começo ao fim. A obra de Douglas Chaves e
“Desterrados” com certeza fazem o público silenciar, silêncio este que se pode cortar
no ar e que denota choque, reverência e reflexão. Sem dúvida nenhuma uma das
grandes peças do ano de 2015.












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