Tecladista,
poeta, Mestre Escriba, Diniz despontou na(s) carreira(s) muito jovem
e tem brilhado desde então obtendo reconhecimento mais do que
merecido em tudo o que faz, primeiro na música e posteriormente com
a literatura.
Foi
numa noite tranquila que Marcelo concedeu-me esta entrevista na
presença de sua parceira querida Patrícia Borges, um café com
poesia e duas doses de generosidade como é de praxe em se tratando
deste Mestre Merlin da cidade de Campinas...
Leonardo
Mattar Monteiro – O que é poesia?
Marcelo
Diniz – Poesia é a VIDA. Poesia é perguntar o que é felicidade
de sopetão, ligando uma câmera no rosto de alguém...
LMM
– E o que é felicidade?
MD
- Felicidade é ter a mão para estender; é a mão estendida; é o
ato de doar [fazendo um gesto que é bastante característico de
Diniz, muito conhecido daqueles que convivem com o artista, como
ofertando algo em suas mãos]...
LMM
- Sua carreira musical é um tanto conhecida, mas como é que a
literatura entrou em sua vida [a poesia inclusa, claro]?
MD
– Na verdade, acho que sempre esteve nela desde tenra idade. Tudo o
que lia e absorvia desde os sete, oito anos de idade ia aos poucos
formando o futuro escritor – depois, na escola, havia a
obrigatoriedade da leitura & análise de várias obras literárias
a cada bimestre: Machado de Assis, Lima Barreto, mas sabe como é,
tudo que é obrigatório fica chato...
LMM
– E aí você odiava aquilo...
MD
– Exatamente. Mas de repente surge um Saint Exupery aqui, um Lewis
Carroll ali, e quando você se dá conta o prazer da leitura já se
desenvolveu em você.
LMM
– E o de escrever?
MD
– Começa muito cedo também, onze, doze... ao menos pra mim. Sabe
como é, você escreve aquelas cartinhas apaixonadas para várias
menininhas da escola, pra quem você nunca as irá entregar, e assim
vai depurando seu estilo pouco a pouco. Além do quê, a música
também desempenha um papel nisso tudo. Você começa a prestar
atenção nas letras, que também são influenciadas pela literatura.
Então você ouve/lê Jim Morrison, influenciado por Arthur Rimbaud e
William Blake, você trava contato com Humberto Gessinger que por sua
vez lê/cita Moacyr Scliar e Jean Paul Sartre, Roger Waters & por
aí vai...
LMM
– E os poemas surgem assim também?
MD
– Sim, porque poesia pode ser curta, rápida, sintética,
exatamente como uma canção. Em quatro linhas pode-se descrever um
sentimento. Como...
Tiro no pé
Pensas
que é a sogra
A grande cobra
Dessa novela ?
Não se engane meu amigo
Ainda terás que passar
Pela irmã mais velha
A grande cobra
Dessa novela ?
Não se engane meu amigo
Ainda terás que passar
Pela irmã mais velha
É esta
a questão: prosa, letra, verso, são todas expressões que vem de um
mesmo elemento denominado ARTE.
LMM
– Como músico, você começa em 1996 e se torna bastante conhecido
no cenário de Campinas a partir de 2007. Quando é que você
considera seu início 'oficial' como escritor?
MD
– Acho que a partir de 2010, mais especificamente 01 de janeiro do
ano de 2010.
LMM
– Por quê?
MD
– É quando inicio meu blog.
http://marcelodiniz.net/
http://sonhoanalogico.blogspot.com.br/
A
data foi escolhida a dedo. Tudo tem seu simbolismo...
LMM
– Podemos considerar então sua carreira literária meteórica em
comparação com a musical...
MD
– Sim; foram quatro livros já publicados, com três ou quatro a
caminho para 2016, todos realizados do jeito que eu queria,
financiados por mim, sem a interferência de editoras; posso dizer
que foi tão recompensador quanto surpreendente. Tive o envolvimento
de editoras, claro: Iluminata, Essencial, com a mediação do Carlos
Torres, que foi não somente editor mas um agente literário atuante,
que coloca sua obra em Feiras de Livros, stands, algo importante para
qualquer escritor, pois da mesma forma que o autor ajuda a colocar
uma editora em evidência, a mesma divulga e distribue seu trabalho.
Como foi o caso da Delicatta, que me convidou para seu stand na
Bienal do Livro.
LMM
– Já que mencionou, como foi participar da Bienal de 2014? Qual é
a sensação, ainda mais para um autor tão jovem como você?
MD
– Foi impressionante em todos os sentidos possíveis. De repente,
você se vê sendo prestigiado por um público totalmente novo,
jovem, e que está ali interessado em sua obra. É incrível.
LMM
– Falamos muito de sua carreira literária mas vocẽ tem uma obra
musical que se insere tranquilamente entre as dez mais importantes da
Música Eletrônica já lançadas neste país, com resenhas elogiosas
de especialistas da área. Fale-nos um pouco da história &
trajetória do álbum “Analog Dream”.
MD
– É muito curioso; na verdade, posso definir este trabalho como 'a
contradição contra a tradição'. Tudo começou sem a menor
pretensão. Era apenas um experimento, eu testando timbres como
músico. Este processo me levou a reconhecer padrões das obras de
outros músicos que já admirava como Synergy, Jean-Michel Jarre,
Tangerine Dream, Vangelis, etc. As faixas começaram a tomar forma,
se transformando numa espécie de 'trilha sonora para um filme
inexistente'... “Analog Dream” nasce, se desenvolve e é gestado
assim, indo parar nas prateleiras do mundo, como gosto de dizer. Foi
quando tomou vida própria. As resenhas de camaradas de profissão
começaram a pipocar, me deixando lisonjeado sinceramente; a Livraria
Cultura adquiriu um lote, enviou para os sete Estados do Brasil onde
tem franquias, uma cópia acabou na mão do Caco Barcelos, que por
sua vez inseriu-o na(s) trilha(s) do Programa “Profissão
Repórter”, usando trechos & trilhas do “Analog...” até
hoje. Uma trajetória admirável.
https://itunes.apple.com/us/album/analog-dream/id519345941
LMM
– E a Internet? Estamos numa época em que mais e mais artistas tem
migrado para o formato digital obtendo êxito. E quanto a você, o
que pensa disto tudo?
MD
– Posso afirmar sem sombra de dúvida que o virtual é a próxima
onda. Porque se vocẽ pensar bem, música sempre foi uma forma de
Arte que você não possui materialmente. Existe o CD no formato
físico, claro, mas na realidade a música é intangível, você não
a segura, não a possue, só pode ouvir e sentir. Há o fetiche pelo
cd ou livro físico, sempre que possível vou querer minha arte
nestes formatos. Porém, o digital tem uma perenidade única. Você
nunca terá de se preocupar com tiragem, falta do produto, enfim, o
download de suas obras seja em que expressão artística fôr, estará
ali para ser adquirido forever.
LMM
– Falemos de influências, inspirações, obras, escribas e poetas
que leia & admire. Sua obra poética parece ter muitos paralelos
bem delineados com a de Mário Quintana, estou certo?
MD
– Fico feliz que pense assim porque é verdade; Quintana é meu
poeta favorito. Mas posso citar muitos outros: Fernando Pessoa, por
exemplo, um colosso que descobri na adolescência. Certa vez foi
elaborada uma lista de 10 Poetas mais importantes da Língua
Portuguesa e ele era os SETE primeiros colocados dentre os escolhidos
[ao leitor não familiarizado com Pessoa e sua obra, ler a resenha
sobre o mesmo & seus heterônimos elaborada por mim e postada
aqui no blog]! Mas não nos esqueçamos dos grandes talentos vivos,
principalmente da minha região e país. Humberto Gessinger, Lenine
Rocha, que estará entre vários outros poetas no cast da antologia
“Qualquer Amor” a ser lançada em breve, Fla Perez... Na
Literatura mais especificamente, citaria Dostoievsky, com seu
detalhismo descritivo impressionante, Guimarães Rosa, José Osório,
cuja obra “Crônicas da Morte” tive o privilégio de obter em
primeira mão das próprias do autor em Itú [que em breve
entrevistarei para este blog]
LMM
– Agora quero saber sobre os seus trabalhos/projetos futuros. Pode
adiantar quais são?
MD
– Sim, certamente. Comecemos com “ALQUIMIA”, novo álbum
autoral que de certa forma é o ápice de vários experimentos entre
minha música e minha poesia. É um trabalho que provavelmente
encontrará morada fundamentalmente no mundo virtual, com
participações especiais de Sheila LeDu, Rick Furlani, Fabiano
Negri, Patrícia Borges [& até deste que vos escreve neste blog
=]. Há a “Qualquer Amor”, já citada anteriormente, uma
compilação/antologia à Guimarães Rosa com trabalhos meus e de
mais cinco outros poetas. Já deveria ter sido lançada em Outubro
deste ano. Porém devido a cirurgia e cuidados de minha mãe Lúcia
recentemente teve de ter a publicação adiada para 2016. Também
elaboro há tempos um livro de crônicas intitulado “Café, poesia
e duas doses de ironia”, com minhas elocubrações sobre o mundo à
nossa volta, um novo livro de poesias e finalmente um Romance. Não
vou adiantar muito sobre este último mas posso dizer que é dedicado
à minha amada companheira Patrícia Borges...
LMM
– Com tantas referências & influências pairando sobre a alma
do artista Marcelo Diniz, podemos esperar uma Ópera Rock em seu
currículo um dia?
MD
– É claro que sim! Totalmente possível. Nunca diga nunca.
[
clássico e típico sorriso de Mona Lisa no rosto de querubim. Este é
o grande Marcelo Diniz =]
mhdiniz@gmail.com
Bibliografia
– obras poéticas - MARCELO DINIZ :
- ENTRE SONHOS E MUROS , 2011
- ENTRELINHAS , 2012
- SONHO COTIDIANO , 2013
- PARTHENON , 2014




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