terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Entrevista com o Artista & multiinstrumentista FABIANO NEGRI

Apesar de um dia muito triste para um mendigo do METAL como eu [fui destroçado pela notícia da morte daquele que talvez seja o maior Ícone da História do gênero, LEMMY KILMISTER, nesta madrugada] tive a alegria de finalmente realizar minha extensa entrevista com FABIANO NEGRI , aquele que considero um dos maiores artistas deste País, pra mim um Mestre Jedi  com a clara missão de trazer beleza & enlightment a este mundo. Este é meu presente de fim de ano em 2015 às pessoas de bom gosto ...


Leonardo Mattar Monteiro - Escreva-me sobre a ideia & o projeto de abrir uma escola de Música que desembocou na inauguração da Escola Cultura Pop; como & quando isto ocorreu ?

Fabiano Negri - Sou professor de música desde 1997 e lecionei durante 8 anos na Escola Cromat. Em 2005 decidi que era hora de abrir um espaço só meu, pois a família estava crescendo e eu também precisava crescer profissionalmente. Foi aí que surgiu a Escola Cultura Pop. Já estamos há 10 anos no mercado, trazendo uma maneira diferente de ensinar música. Sempre gosto de pensar que minha missão é formar "carreiras" e tenho sido bem sucedido no meu intuito. 

                                      http://www.escolaculturapop.com/


LMM - A Arte é tudo para você , a ponto de dedicar mais de vinte anos nonstop a este ideal. Já falou sobre sua inquietação a respeito de seu próprio trabalho & o quanto isto é vital para um artista. Acha que o público é capaz de entender estas nuances ou estamos pregando para uma multidão de néscios que não são capazes de compreender porra nenhuma ?

FN - Vamos falar a verdade. Fazer música no Brasil não é fácil. Ainda mais o tipo de música que eu faço. Sou um artista que não pensa no sucesso e sim na qualidade do meu trabalho. O público praticamente não existe. Tenho alguns poucos e fiéis seguidores que me mantém focado na minha carreira. Mas no geral é uma carreira que serve para me satisfazer em primeiro lugar. Faço o que me dá na telha, faço um tipo de música que não precisa ter rótulos. Apenas música que eu considero boa para os meus padrões. Não faço canções para quem não tem a mente aberta. E isso é difícil, porque as pessoas gostam de rótulos. Principalmente o público do metal. Eu fui criado no metal, cresci fazendo esse tipo de som, mas nunca fui radical. Sempre curti tudo. Com o passar dos anos eu fui ficando cada vez mais arredio ao metal e ao radicalismo burro que ele representa. Caramba, música é música. As pessoas precisam acordar e ouvir outras coisas sem preconceito. 

LMM - Um dos primeiros artistas junto com Marcelo Diniz (também aqui de Campinas) a saber como & usar a internet a seu favor, como vê este cenário hoje ? Como ficam os resultados na confrontação 'obra de arte física' versus 'produto digital' ?

FN - É legal. Mas ultimamente tudo tem ficado meio congestionado. Tem muita gente usando a rede para promover seus trabalhos. O problema é que temos muito coisa ruim e pouco coisa realmente boa. A internet coloca bons artistas e artistas pouco preparados no mesmo patamar. Isso gera uma confusão nas pessoas, que acabam achando que tudo é um lixo. Mas aos trancos e barrancos vamos caminhando nesse mar de lama. Haha !

LMM - Você é uma bateria de criação & energia aparentemente inesgotável. Seu mais novo projeto é algo ousado de nome "Z.3.R.O". Pode me falar mais sobre ele, como surgiu a inspiração para o mesmo , etc ?


FN - É um projeto com uma cara mais experimental. É muito mais pesado e sombrio do que meu último disco. Eu tenho essa coisa "dark" dentro de mim. Não esperem por canções bonitinhas. O lance é áspero, é azedo. O primeiro single saí dia 9 de janeiro e trará duas canções. Z.3.R.O. e My Dark Passenger. Durante o ano soltarei mais diversos singles do projeto. E para o segundo semestre lançarei a Ópera Rock "Cursed Artist" com a minha banda!

LMM - Recentemente li alguém que tweetou: "Fabiano Negri é o mais legítimo herdeiro de David Bowie", no que concordo em gênero, número & grau. Mas e você, o que pensa disso, concorda...? 

FN - O Bowie é exatamente o que eu espero em um artista de verdade. Um cara que NUNCA teve medo de se reinventar. Tudo o que ele fez tem qualidade. Eu amo seus trabalhos. Se um dia eu puder ser 10% do que ele é, estarei feliz. É um dos meus artistas favoritos e talvez minha maior influência.

LMM - Uma pergunta um tanto polêmica ; foi criador de algumas das bandas mais avant garde da cidade de Campinas, Mindfreak, Sun Machine, Machina, todas talvez muito melhores & mais espetaculares que o Rei Lagarto ... mas que tiveram curtíssima duração. Você atribui isto à cegueira do público da cidade de Campinas, ou na verdade voltamos à questão de que Arte avançada é para pouquíssimos? Quero sua opinião a respeito.

FN - Em primeiro lugar não concordo que sejam bandas mais espetaculares que o Rei Lagarto...hehe
Mas eu acho que o problema não teve a ver com o público e sim com as próprias bandas. Acabaram por problemas internos, por falta de motivação para continuar. Às vezes os projetos tem vida curta mesmo. Chegam, dão conta do recado, e terminam. Os que mais duram são aqueles que realmente tinham mais lenha para queimar.

LMM - Fabiano Negri é um cara muito generoso com seus pupilos & discípulos; como um bom Jedi, prepara & pavimenta o caminho para os mesmos. Quão importante acha este trabalho de produção / incentivo & acha que o problema com a cena musical de Campinas talvez seja esse? Falta de generosidade & entrega?

FN - Não sei. Eu sou assim. Eu sempre quero que meus alunos tornem-se melhores do que eu sou. Eu quero mais talentos espalhados por aí. Quero ajudar, sempre. Quem tem contato verdadeiro comigo sabe bem como eu sou. Embora muita gente queira me pintar como um cuzão arrogante e babaca, eu sempre coloco a cabeça no travesseiro bem tranquilo. Sei que não sou nada disso. Sou um cara que incentiva a arte de maneira sincera. Encaro isso como uma missão. 

LMM - Como eu, você é totalmente dedicado ao cenário de Campinas mas um cidadão do mundo, sem amarras com o provincianismo. Acha que se sua carreira tivesse se desenvolvido numa metrópole como em São Paulo, por exemplo, teria sido diferente ou na verdade a 'doença da indiferença' que acomete esta cidade é um problema nacional, brasileiro mesmo?

FN - É um problema nacional, sim. Na verdade um grande e absurdo problema cultural. E também um problema de ego coletivo. As pessoas não tem educação no Brasil. Não tem cultura e se julgam "entendidas". Basta ver comentários em fóruns por aí. A maioria dos comentários é sempre negativo. As pessoas não conseguem apreciar alguma coisa sem tentar buscar primeiro o defeito. Estamos dominados pelo 'achismo' e pela prepotência. Mas o lance é se alienar em relação a isso e seguir em frente. Compartilhar arte com quem merece e deixar o pasto para quem quer pastar. 

LMM - 2016 verá o lançamento de seu trabalho mais ambicioso até agora, o conceitual "Cursed Artist", que como o "The Wall" de Roger Waters é autobiográfico, ou seja, baseado em suas próprias experiências pessoais. Quer me contar um pouco mais sobre esta sua nova obra prima ?

FN - "Cursed Artist" é uma ópera rock sobre a vida do artista maldito no Brasil. O artista que não se vende, que não pensa no sucesso, que pensa na arte como ARTE. E a missão é dura. O projeto é o resultado da parceria entre o estúdio LaRocha, minha banda e você [este que vos escreve neste blog =] como ilustrador. A coisa já está andando e pretendo lançar o álbum no meio do ano. Espero que as pessoas ouçam e prestem atenção na mensagem.
 



LMM - Conselhos pra quem está entrando nesta carreira agora. Como seguir sendo artista / músico / criador ? É possível manter a integridade e ficar longe da torrente de mediocridade vigente nos dias de hoje?

FN - Seja verdadeiro. Seja honesto com a sua ARTE .
E mais importante do que tudo:
Não seja imbecil em tentar qualificar sua arte desqualificando a arte do seu companheiro.
Fazendo isso você não é um artista.
Você é um bosta.

Feliz 2016. 


http://www.fabianonegri.com/

fabianonegri@yahoo.com.br

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