segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Resenha sobre o texto FERNANDO PESSOA ( 1888 – 1935 ) de RICHARD ZENITH e publicado no Dicionário de Fernando Pessoa e do Modernismo Português


Apaixonante e ampla visão não somente da obra igualmente apaixonante do grande Poeta Português Fernando Pessoa mas também de sua vida fascinante, é o que nos oferece este texto precioso de Richard Zenith.
Sua análise da relação Pessoa com as línguas – não somente o português, 'materna', como o inglês e até mesmo o francês, 'adotivas' – traça o caminho intelectualmente percorrido pelo autor desde a mais tenra infância até sua maturidade como poeta e escritor. Curiosa a forma como nesta quase 'dissecação' do escritor um paralelo é traçado entre a obra de Pessoa em si (& de seus inúmeros heterônimos, inclusive em língua inglesa e até francesa, como Jean Seul) e toda a literatura que o influenciou: Hugo, Baudelaire, Rimbaud por exemplo, no francês, Shakespeare, Dickens, Whitman no inglês (este último inclusive muito provavelmente responsável por ter deixado uma impressão indelével no autor português e pelo salto qualitativo de Pessoa em direção ao movimento do qual acabou tornando-se de certa forma um símbolo – o Modernismo)...
Importante salientar que como o escritor criou diferentes heterônimos, é clara e obviamente possível encontrar na obra de Fernando Pessoa diferentes estilos.
O versátil e brilhante autor escreveu poemas em inglês, poesias líricas e poesias históricas com caráter nacionalista, (aliás, ironicamente, ele teve mais material escrito em inglês publicado em vida do que seus trabalhos em língua pátria), o que se percebe facilmente se analisados os trabalhos de um de seus heterônimos diretamente 'influenciado' pela língua anglo saxã (Alberto Caieiro). Com todos estes alteregos tendo biografias específicas, cada 'autor' dentro do benignamente 'posesso' gênio de Pessoa possui textos com temas e opiniões muito variados e diferentes entre si. Caeiro por exemplo (apenas para nos ater ao previamente citado) é o mestre, sendo admirado por todos os outros.
O mergulho na intimidade deste ícone da Literatura Portuguesa promovido por Zenith nos faz entender muito melhor a multifacetada e arrebatadora personalidade do ortônimo Fernando Pessoa assim como também os porquês da 'usina criativa geradora interna' dos heterônimos do artista.
É justamente na obra de um heterônimo, um de seus mais célebres no caso (Álvaro de Campos), como bem relembra Zenith, que parece definir e explicar all the same o TODO e os múltiplos Fernando Pessoa:
Ultimatum propõe a «abolição do dogma da personalidade» e afirma que «nenhum artista deverá ter só uma personalidade», já que o «maior artista será o que menos se definir, e o que escrever em mais gêneros com mais contradições e dissemelhanças».
O maior artista, por outras palavras, terá múltiplas personalidades («quinze ou vinte» estipula o manifesto mais adiante), exatamente como Fernando Pessoa”; que não foi somente um escritor de talento gigantesco e aparentemente inesgotável como também esteve muito adiante de seu tempo – justamente por isso talvez tenha sido um dos definidores do movimento pelo qual sua obra ficou imortalizada, o Modernismo.
Zenith de certa forma somente merece uma menção derrogatória apenas no aspecto da abordagem da fase esotérica de Pessoa, mencionada um tanto 'en passant'.
Fase esta com um heterônimo astrólogo, passagens e trabalhos profundos (como “Mensagem”) e situações bem pitorescas como a amizade formada com uma das figuras mais polêmicas da História, o Ocultista Negro Aleister Crowley, o escritor português inclusive tendo se mostrado/provado superior a Crowley corrigindo um erro do mago de Therion em um mapa astrológico, episódio aliás que gerou justamente o interesse de Crowley em conhecer Pessoa em pessoa – no pun intended – e a amizade entre os dois. Entre outros fatos tenebrosos, Aleister teve sua Ordo Templi Orientis aliada do regime do Reich Hitleriano, e o célebre episódio de ter surgido/sido visto em dois locais diferentes do mundo gerava comentários jocosos por parte de Pessoa, apesar de tempos depois o próprio poeta português ter afirmado oficialmente em depoimentos à polícia que via o 'fantasma' de Crowley vagando pelas ruas da cidade de Lisboa... Os espíritas de linha Kardecista & estudiosos do assunto, tem explicações possíveis para ambas as manifestações (vale o esclarecimento: Crowley teria se suicidado naquela cidade no ano de 1930, mas vários indícios levam a crer que pode ter havido um homicídio minuciosamente planejado por outro ocultista negro de nome York, o qual parece corroborado por algumas opiniões do amigo e confidente de então Pessoa. Para muitos, no entanto, isto não passou de uma 'blague').
Zenith sobrevoa estes fatos assim como a busca incessante pela verdade e a chave da vida (que se tornou um tanto frequente e obsessiva na obra do autor) com relativa displiscência. Porém, nada de tão grave que comprometa o texto de Richard em si ou mesmo o prazer na leitura do mesmo.
A obra do chamado 'Pai do Modernismo Português' é inegavelmente obrigatória para quaisquer estudiosos sérios das Artes e mais especificamente da Literatura. Um autor a constar das listas de escritores essenciais de todos os tempos.
O trabalho de Richard Zenith para o Dicionário de Fernando Pessoa e do Modernismo Português torna-se igualmente obrigatório no que tem de generoso e esclarecedor ao abordar Pessoa, com aprofundamento em aspectos do humano e do artístico sem ser pedante, prolixo, ou mesmo obscuro.
É na clareza de suas exposições e explanações que reside a grande força do texto. É possível vislumbrar Pessoa como se ainda vivesse entre nós. Impossível seria até mesmo para o mais desinteressado dos leitores finalizar a leitura do mesmo sem carregar consigo entendimento geral sobre o autor, mesmo que nunca tenha lido “Primeiro Fausto” e/ou “O Banqueiro Anarquista” (duas pérolas saborosas dentre seu numeroso corpo de obra e exercícios eruditos de alta linguagem, poesia e literatura), ou sequer conhecimento prévio do que seriam 'heterônimos'.
Aliás, como forma de não só complementar mas também de louvar o verbete de Zenith e a obra já elogiada em si, recomenda-se mergulhar nas inebriantes e virtuosas peripécias literárias de Fernando Pessoa logo após a leitura.
Boa viagem...


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