Apaixonante
e ampla visão não somente da obra igualmente apaixonante do grande
Poeta Português Fernando Pessoa mas também de sua vida fascinante,
é o que nos oferece este texto precioso de Richard Zenith.
Sua
análise da relação Pessoa com as línguas – não somente o
português, 'materna', como o inglês e até mesmo o francês,
'adotivas' – traça o caminho intelectualmente percorrido pelo
autor desde a mais tenra infância até sua maturidade como poeta e
escritor. Curiosa a forma como nesta quase 'dissecação' do escritor
um paralelo é traçado entre a obra de Pessoa em si (& de seus
inúmeros heterônimos, inclusive em língua inglesa e até francesa,
como Jean Seul) e toda a literatura que o influenciou: Hugo,
Baudelaire, Rimbaud por exemplo, no francês, Shakespeare, Dickens,
Whitman no inglês (este último inclusive muito provavelmente
responsável por ter deixado uma impressão indelével no autor
português e pelo salto qualitativo de Pessoa em direção ao
movimento do qual acabou tornando-se de certa forma um símbolo – o
Modernismo)...
Importante
salientar que como o escritor criou diferentes heterônimos, é clara
e obviamente possível encontrar na obra de Fernando Pessoa
diferentes estilos.
O
versátil e brilhante autor escreveu poemas em inglês, poesias
líricas e poesias históricas com caráter nacionalista, (aliás,
ironicamente, ele teve mais material escrito em inglês publicado em
vida do que seus trabalhos em língua pátria), o que se percebe
facilmente se analisados os trabalhos de um de seus heterônimos
diretamente 'influenciado' pela língua anglo saxã (Alberto
Caieiro). Com todos estes alteregos tendo biografias específicas,
cada 'autor' dentro do benignamente 'posesso' gênio de Pessoa possui
textos com temas e opiniões muito variados e diferentes entre si.
Caeiro por exemplo (apenas para nos ater ao previamente citado) é o
mestre, sendo admirado por todos os outros.
O
mergulho na intimidade deste ícone da Literatura Portuguesa
promovido por Zenith nos faz entender muito melhor a multifacetada e
arrebatadora personalidade do ortônimo Fernando Pessoa assim como
também os porquês da 'usina criativa geradora interna' dos
heterônimos do artista.
É
justamente na obra de um heterônimo, um de seus mais célebres no
caso (Álvaro de Campos), como bem relembra Zenith, que parece
definir e explicar all the same o TODO e os múltiplos Fernando
Pessoa:
“Ultimatum
propõe a «abolição do dogma da personalidade» e afirma que
«nenhum artista deverá ter só uma personalidade», já que o
«maior artista será o que menos se definir, e o que escrever em
mais gêneros com mais contradições e dissemelhanças».
O
maior artista, por outras palavras, terá múltiplas personalidades
(«quinze ou vinte» estipula o manifesto mais adiante), exatamente
como Fernando Pessoa”; que não foi somente um escritor de talento
gigantesco e aparentemente inesgotável como também esteve muito
adiante de seu tempo – justamente por isso talvez tenha sido um dos
definidores do movimento pelo qual sua obra ficou imortalizada, o
Modernismo.
Zenith
de certa forma somente merece uma menção derrogatória apenas no
aspecto da abordagem da fase esotérica de Pessoa, mencionada um
tanto 'en passant'.
Fase
esta com um heterônimo astrólogo, passagens e trabalhos profundos
(como “Mensagem”) e situações bem pitorescas como a amizade
formada com uma das figuras mais polêmicas da História, o Ocultista
Negro Aleister Crowley, o escritor português inclusive tendo se
mostrado/provado superior a Crowley corrigindo um erro do mago de
Therion em um mapa astrológico, episódio aliás que gerou
justamente o interesse de Crowley em conhecer Pessoa em pessoa – no
pun intended – e a amizade entre os dois. Entre outros fatos
tenebrosos, Aleister teve sua Ordo Templi Orientis aliada do regime
do Reich Hitleriano, e o célebre episódio de ter surgido/sido visto
em dois locais diferentes do mundo gerava comentários jocosos por
parte de Pessoa, apesar de tempos depois o próprio poeta português
ter afirmado oficialmente em depoimentos à polícia que via o
'fantasma' de Crowley vagando pelas ruas da cidade de Lisboa... Os
espíritas de linha Kardecista & estudiosos do assunto, tem
explicações possíveis para ambas as manifestações (vale o
esclarecimento: Crowley teria se suicidado naquela cidade no ano de
1930, mas vários indícios levam a crer que pode ter havido um
homicídio minuciosamente planejado por outro ocultista negro de nome
York, o qual parece corroborado por algumas opiniões do amigo e
confidente de então Pessoa. Para muitos, no entanto, isto não
passou de uma 'blague').
Zenith
sobrevoa estes fatos assim como a busca incessante pela verdade e a
chave da vida (que se tornou um tanto frequente e obsessiva na obra
do autor) com relativa displiscência. Porém, nada de tão grave que
comprometa o texto de Richard em si ou mesmo o prazer na leitura do
mesmo.
A
obra do chamado 'Pai do Modernismo Português' é inegavelmente
obrigatória para quaisquer estudiosos sérios das Artes e mais
especificamente da Literatura. Um autor a constar das listas de
escritores essenciais de todos os tempos.
O
trabalho de Richard Zenith para o Dicionário de Fernando Pessoa e do
Modernismo Português torna-se igualmente obrigatório no que tem de
generoso e esclarecedor ao abordar Pessoa, com aprofundamento em
aspectos do humano e do artístico sem ser pedante, prolixo, ou mesmo
obscuro.
É
na clareza de suas exposições e explanações que reside a grande
força do texto. É possível vislumbrar Pessoa como se ainda vivesse
entre nós. Impossível seria até mesmo para o mais desinteressado
dos leitores finalizar a leitura do mesmo sem carregar consigo
entendimento geral sobre o autor, mesmo que nunca tenha lido
“Primeiro Fausto” e/ou “O Banqueiro Anarquista” (duas pérolas
saborosas dentre seu numeroso corpo de obra e exercícios eruditos de
alta linguagem, poesia e literatura), ou sequer conhecimento prévio
do que seriam 'heterônimos'.
Aliás,
como forma de não só complementar mas também de louvar o verbete
de Zenith e a obra já elogiada em si, recomenda-se mergulhar nas
inebriantes e virtuosas peripécias literárias de Fernando Pessoa
logo após a leitura.
Boa
viagem...

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