Todas as vezes em que tenho o privilégio
de ver um artista de rua se apresentando fico admirado e me pergunto intimamente
quanto de desprendimento e coragem são necessários para se expôr de corpo e
alma à voracidade de (quaisquer) selvas urbanas nas quais moramos.
Imagine então se você além de artista fôr
mulher, frágil pela própria natureza física (nunca a espiritual com certeza),
acompanhada de um caixão e 'protegida' apenas e simplesmente por um 'cordão de
não isolamento' no chão.
E isso tudo nos é apresentado antes
sequer do espetáculo se iniciar...
Este é “Pesa–me Mucho”, esta é LUCIANE OLENDZKI ou Palhaça Querubina, como ela prefere ser vista/conhecida.
Luciane chega, com uma pequena entourage,
seus objetos de cena - entre os quais se destaca o caixão citado – e como se
diria costumeiramente com a cara e a coragem. Com sua doçura característica,
chama os transeuntes ao ‘picadeiro público’, se transforma aos poucos em seu
alter ego, a desajeitada e igualmente cativante Querubina.
A partir daí o que vivenciaremos é uma
farsa divertida que de engraçada tem apenas a superfície.
Aos que tem alma, aos sensíveis, aos que
algum dia perderam os que amavam (e que não se enganem aqueles que ainda não
pois esta é uma condição sine qua non da vida), “Pesa-me Mucho” irá falar
profundamente, fazendo-nos questionar o verdadeiro sentido da vida, não o ter
desta ‘sociedade líquida’ como bem define Bauman, mas o ser.
Querubina brinca, provoca, chama as
pessoas à participarem de uma comemoração em homenagem de seu amado falecido
Genival (o habitante daquele caixão) e honrar seu derradeiro desejo ainda em
vida.
Muito curioso notar a desconfiança,
silêncio, atitudes agressivas até por parte de muitos transeuntes. Pode-se
explicar (ou tentar-se) tais fatos pela cultura da futilidade e ignorância à
qual nosso povo é empurrado todos os dias. Seja belo, seja jovem, jamais
questione, mantenha-se na superfície, jamais desça ao fundo de sua alma.
Alguns, talvez os mais despertos, e mesmo os ébrios (e me incluo, com muito
orgulho em ambas as categorias) ‘embarcam’ na celebração de Querubina. Talvez
porque também precisem transgredir, talvez por carência afetiva, ou
simplesmente por entenderem mesmo que superficialmente que a única certeza que
temos quando nascemos é da morte.
Pode-se analisar “Pesa-me Mucho” por
várias interpretações/ângulos possíveis. Há um que de gótico em colocar uma
clown vestida de tule preto declarando amor incondicional a um defunto... Há
até uma sensualidade mansa e envolvente em Querubina – principalmente porque o
texto brinca muito com uma série de questões sexuais e uns poucos felizardos
(eu, por exemplo) terminarão esta jornada comprometidos e casados com uma
apaixonante e espertíssima Querubina (e como dizer não?)...
E justamente aí que reside a beleza maior
de “Pesa-me Mucho” – um espetáculo pensado & repensado com profundidade por
Lu Olendzki & Ésio Magalhães (e não poderia ser de outra forma, já que
ambos fazem parte do grupo dos grandes e verdadeiros palhaços do planeta,
Maestro e Maestrina de tão nobre arte): nos chamando à verdade da vida,
compartilhando seus sentimentos e convidando à celebração, Querubina quebra
todas as regras, trocando o palco italiano pelo inesperado e aliada à música
comandada com inteligência pelo DJ Caveirinha (Matheus), gerando uma
experiência necessária. Sem qualquer tipo de ironia, todo mundo deveria ver
“Pesa-me Mucho” ao menos uma vez na vida antes de morrer.
Tive esta felicidade algumas vezes. Posso
morrer feliz. Os cabelos desgrenhados, prateados e esvoaçantes da diáfana
Querubina são a afirmação da natureza anárquica e apaixonante do palhaço.
Poucas vezes vi algo que pudesse simbolizar tão perfeitamente aquela já célebre
máxima em latim – carpe diem!



Belíssima resenha!
ResponderExcluirQue vontade de ver esse espetácuo!!!
ExcluirMuito obrigado,Synara!🖤
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